FOZ – Guadiana Digital

Autor: jestevaocruz

  • Acerca de escolhas e de conflitos

    Acerca de escolhas e de conflitos

    Crónicas Avulsas


    Todos os dias e a toda a hora, a inevitável dinâmica da vida, a nossa e a dos outros com quem interagimos, confronta-nos com a necessidade de fazer escolhas: umas inofensivas, outras mais complicadas!

    Um exemplo simples: querendo nós perder algum do nosso peso em excesso, questionarmo-nos se cedemos à gulodice e comemos aquele apetitoso pastel-de-nata que grita por nós, acabadinho de sair do forno, de mais do que certo saborosíssimo recheio e de massa estaladiça ou, calçamos as sapatilhas e vamos explorar um ainda desconhecido trilho que atravessa algumas pitorescas aldeias da serra?

    Ao termos de escolher entre o pastel-de-nata ou a caminhada, estamos perante um conflito interior que temos de saber gerir. Haverá quem ceda ao pastel-de-nata, todavia, muitos outros calçarão as sapatilhas. Não há respostas certas de aplicação universal. As opções de cada um dependem da sua própria realidade: alguns terão difícil relação com a balança por serem irremediavelmente gulosos, outros, por problemas de saúde que lhes descontrola o funcionamento da tiróide. Com o avançar da idade e o acumular das gordurinhas que tendencialmente se distribuem de forma indiscreta, expondo proeminências inestéticas e indesejadas, teremos maior capacidade de resistir ao pastel mas, também menor mobilidade.

    O que importa reter é que a satisfação de um dos dois estímulos coincidentes em termos temporais tem como consequência a insatisfação do outro; esta circunstância cria alguma frustração mas, a caminhada da vida faz-se de escolhas.

    Este mecanismo que sustenta o processo das escolhas pessoais de cada um de nós perante os impulsos que a vida nos oferece, se o alargarmos a quem exerce funções de liderança, pessoa que deverá estar atenta às relações que se estabelecem entre diferentes indivíduos unidos por uma estrutura ou projecto comum, para que ele seja viável e tenha êxito, teremos de ter em consideração outras nuances.
    Desde logo, conciliar diferentes escalas de valores morais e éticos, assim como diferentes interpretações do mundo e da vida, diferentes “visões do mundo” próprias de diversas etnias ou origens culturais de quem faz parte da equipa liderada, considerando-as como contribuições de cada um para o fortalecimento do grupo.

    Caso não o faça, estarão criadas condições para gerar conflito entre os membros da equipa que lidera, o chamado conflito interpessoal, condenando o projecto comum a um eventual fracasso.

    Se um líder tiver as competências necessárias para gerir relações que resultam de diferentes sensibilidades, tem todas as condições para o sucesso e formar uma boa equipa: seja ela no plano desportivo, profissional ou, inclusivamente, na liderança de um país.

    Este texto foi escrito no rescaldo da inconcebível e inaceitável invasão do Capitólio, nos Estados Unidos da América, protagonizada por uma turba de gente fragilizada mentalmente por militâncias em diferentes organizações extremistas, religiosas e políticas, peões manipulados miseravelmente por um péssimo líder.

    Falo de um líder amoral, vaidoso e narcisista: alguém que acima de tudo quer cumprir a sua agenda pessoal; alguém que se quer esconder na função que exerce por pura cobardia; alguém que insiste em viver uma realidade alternativa; alguém que não reconhece a sua derrota democrática clara nas urnas por manifesta falta de estatura moral e ética; alguém que escolhe ser um miserável criador de ódios que dividem e lançam umas pessoas contra outras.

    O que une uma sociedade são as suas regras de funcionamento, criadas pelos seus representantes e aceites por todos, esse é o cimento que consolida todo o edifício: um líder suscitar o incumprimento dessas mesmas regras porque o resultado de uma eleição não lhe é favorável, significa que esse líder não tem condições para continuar a liderar.

    Este inqualificável líder com lugar garantido na história pelos piores motivos, que deveria assumir ser um símbolo unificador estruturante de uma nação tão importante à escala global, com a sua acção nefasta está a criar condições para um terceiro nível de divergência: o conflito intergrupal!

    Henrique Bonança
    VRSA – 9 de Janeiro de 2021

  • Quinta do Contrabando relança turismo do Guadiana em Huelva

    Quinta do Contrabando relança turismo do Guadiana em Huelva

    Integrando numa zona com cais próprio para aceder pelo rio Guadiana, na fronteira entre Portugal e Espanha avançará, segundo informa hoje o diário ABC de Sevilha, com a assinatura de M. Rosa Font.

    O novo projeto, situado em Sanlúcar del Guadiana, fronteiriço a Alcoutim, idealizado por uma empresa da província de Huelva para dar um impulso ao turismo rural, pretende ser marcado por altos padrões de qualidade e de serviços e colocar-se perfeitamente integrado no ambiente. A escolha do nome tem a ver com a história daquela povoação raiana e sua geminação com Alcoutim, porque recorda rotas antigas de bandoleiros e contrabandistas, no conceito de slow-life.

    O investimento total ronda os 550.000 euros. A empresa Predio Portil Servicios Imobiliários obteve, através do programa espanhol de apoio ao investimento turísticos das PME uma linha de financiamento de 45% para a fase de construção do projeto. O prazo de construção é de cerca de dez meses. Vai criar cinco postos de trabalho.

    Veja a reportagem original

  • Situação da Covid-19 em Tavira

    Situação da Covid-19 em Tavira

    No dia 7, há acrescentar mais uma morte de um cidadão Tavirense de 81 anos de idade com a doença, segundo o SAFEPLA52.

    Ontem, dia 8, o município registou mais um óbito por covid-19, uma senhora de 98 anos residente num lar da cidade perfazendo um um total de 6 falecimentos pela doença.

    Fica também registado o aumento de quase 40 casos de covid-19 fazendo os números passar a barreira dos 500 casos acumulados.

  • Uma árvore a falar pelas outras

    Uma árvore a falar pelas outras

    Kovács Jocó publicou no Facebook esta imagem que, de certa forma um protesto contra o abate que muitos cidadãos consideram radical das árvores plantadas na cidade de Vila Real de Santo António e que, de ceto modo, espelha a incompreensão dos cidadãos da cidade.

    A câmara municipal apresentou uma calendarização das intervenções no arvoredo urbano municipal, a qual decorreu entre 3 e 30 de Novembro do ano passado.

  • Violência no namoro em debate com Jimmy P

    Violência no namoro em debate com Jimmy P

    O objectivo é alertar comunidade juvenil para esta realidade abusiva vivida por muitos jovens, fazendo algumas perguntas sobre como prevenir, onde começa, como agir e procurando avancar uma resposta que alerte os jovens para os sinais de perigo no namoro!

    «Porque a violência no namoro começa desde cedo, na forma de pequenos sinais que muitas vezes passam despercebidos, é necessário alertar para esta problemática. “Amar-te e Respeitar-te”, é um projeto pedagógico de Jimmy P e a empresa Betweien que visa capacitar e dotar os e as jovens com ferramentas de diagnóstico e de prevenção de comportamentos agressivos nas relações de namoro, dos próprios e/ou dos seus pares», opina a estrutura das CPCJ.

    O projeto, para além do livro, compreende temas originais, musicados pelo Jimmy P, e uma peça de teatro, que é a adaptação das histórias do livro ao teatro. É direcionado aos alunos e às alunas do 3.º ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário e pode ser apresentado pelas mais diversas organizações educativas, que trabalhem com este público, em diferentes modelos de apresentação.
     
    Este projeto beneficia ainda de uma parceria estratégica com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que possibilitou, entre outros aspetos, a disponibilização da Linha de Apoio da APAV no site do projeto, com o intuito de ser mais uma via de contacto e de pedido de ajuda.
     

  • Prémio de Nacional de Poesia António Ramos Rosa

    Prémio de Nacional de Poesia António Ramos Rosa

    O prémio foi instituído em 1999, para homenagear o Poeta nascido em Faro, que se sagrou com vulto maior do panorama poético nacional e internacional e é patrono da Biblioteca Municipal.

    A entrega das obras concorrentes terá de ser efetuada entre 7 de janeiro e 31 de março. São admitidas obras poéticas, em primeira edição, publicadas em 2019 e 2020. O júri vai ser composto pelo Nuno Júdice, Carina Infante do Carmo e Isabel Lucas.

    Já se realizaram sete edições, em 1999, 2001, 2007, 2009, 2015, 2017 e 2019, com o objetivo de promover o surgimento de novos poetas ou reconhecer o labor dos já consagrados.

    Em todas as edições mais de 50 obras foram submetidas a concurso, tendo sido atribuído a poetas de reconhecida excelência literária como Fernando Echevarria, Fernando Guimarães, Nuno Júdice, João Rui de Sousa, Luís Quintais, João Luís Barreto Guimarães e Gastão Cruz. É patrocinado pela Fundação Milénio BCP.

    A cerimónia de entrega do Prémio está prevista para setembro de 2021, no âmbito das comemorações do Dia da Cidade, em data a definir.

  • Vicente Campinas 110 anos do nascimento

    Vicente Campinas 110 anos do nascimento

    António Vicente Campinas, patrono da Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António, nasceu a 28 de Dezembro de 1910 em Vila Nova de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António mas, devido a aspetos burocráticos da época, apenas foi registado em 8 de Janeiro de 1911.

    Com pouco mais de um ano a família, António Francisco Campinas e Maria Rosa fixou-se em Vila Real de Santo António. Teve o primeiro emprego na Tipografia Socorro, trabalhou como guarda-livros das firmas José Joaquim Capa, Raul Folque Flores e José António Rita. No Cine Parque de S. José foi violinista em bailes populares. A escrita e a Literatura foram sempre a sua grande paixão. Foi livreiro na Rua Teófilo Braga e em Faro. Em 1935, fundou e dirigiu o periódico Foz do Guadiana, em Vila Real de Santo António, colaborando de forma regular no importante semanário de crítica literária e artística “O Diabo”, desde a sua criação em 1934, até ao seu encerramento pela polícia fascista em 1940. Aos 10 anos, foi colaborador do Pim-Pam-Pum, suplemento juvenil do jornal O Século, já extinto.

    Como jovem escuteiro, organiza a angariação de mais de mil livros e funda a primeira biblioteca pública de Vila Real de Santo António, instalada na sede do Grupo de Escoteiros e, com o amigo António Bandeira Cabrita, nascido seis meses antes, aos 18 anos unificam os diversos sindicatos e fundam o Sindicato dos Trabalhadores da Terra e do Mar. Aos 19 anos transfere da Figueira da Foz, em conjunto com outros jovens vilarealenses, o quinzenário Jornal de Cinema do qual foi diretor. Em 21 de Janeiro de 1935, funda edita e dirige o jornal FOZ DO GUADIANA.

    Vicente Campinas primeiro e Nataniel Campinas, depois, autorizaram que este título pudesse ter alguma continuidade e FOZ -Guadiana Digital, sendo um projeto digital diferente, honra a memória deste vilarealense.

    Vicente Campinas acompanhou escritores com Alves Redol, Manuel da Fonseca e Fernando Namoras. Sofreu perseguições políticas, foi preso e esteve exilado em França, como trabalhando como terrasier , operário na cadeia de montagem da Panhard , valet de chambre, voltando mais tarde a guarda-livros. Se fosse hoje, Campinas entraria no rol daqueles que editam os seus livros e andam com eles debaixo do braço a fazer a distribuição, pois muitos saíram em edições do próprio autor, alguns sob pseudónimo. Quando exilado, começou por trabalhar como operário da construção civil e contabilista, até contactar o editor Arsénio Mota que o ajudou na carreira literária.

    Figura cimeira da corrente literária do neo-realismo português, foi autor de vastíssima obra, abrangendo vários géneros literários, da poesia ao romance, mas também novela e crónica. Alguns dos seus livros foram traduzidos em várias línguas. Autodidata de grande talento, tornou-se um escritor muito apreciado, vindo a ser citado em estudos universitários.

    A nota Biográfica de Vicente Campinas encontra-se amplamente desenvolvida pelo autor da antologia «Guardador de Estrelas», Gil Furtado, editado em 1994, pela câmara municipal de Vila Real de Santo António, presidida por António José Martins. A obra contou com o prefácio de Urbano Tavares Rodrigues.

    A obra

    Entre os seus trabalhos, contam-se:

    • Aguarelas (poesia), 1938
    • Recantos farenses (Livraria Campina), 1956
    • Lisboa, Outono (Livraria Ibérica), 1959
    • Preia-mar, poesias (Ed.do Autor), 1969
    • Reencontro, 1971
    • Escrita e combate – textos de escritos comunistas, 1976
    • Natais de exílio, 1978
    • Homens e cães (contos), 1979
    • Três dias de inferno, (Jornal do Algarve), 1980
    • Vigilância, camaradas (Jornal do Algarve), 1981
    • Gritos da fortaleza, (Jornal do Algarve), 1981
    • Putos ao deus-dará, 1982
    • Rio Esperança, Guadiana, meu amigo (Jornal do Algarve), 1983
    • Fronteira azul carregada de futuro (Ed.do Autor), 1984
    • O dia da árvore marcada (Nova Realidade), 1985
    • Fronteiriços (Nova Realidade), 1986
    • Ciladas de amor e raiva (Ed. do Autor), 1987
    • Segredo do meio do mar (Ed. do Autor), 1988
    • Mais putos ao deus-dará (Orion), 1988
    • O azul do sul é cor de sonho, narrativas, 1990
    • A dívida, os corvos e outros contos (em colaboração com Manuel da Conceição) 1992
    • Guardador de Estrelas, antologia, 1994

    Para além destes livros da sua lavra, participou em várias antologias de poesia, conto e prosa.

    Homenagens

    Em 1994, quando já se encontrava imobilizado e muito doente, a autarquia vila-realense prestou-lhe uma digna homenagem pública e o seu nome foi dado a uma artéria da cidade. Fez parte dessa homenagem a edição de uma antologia das suas obras, com o título «Guardador de Estrelas», com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues

    Em 2011, voltou a ser homenageado em Vila Real de Santo António, presidida por Luís Gomes, por ocasião do centenário do seu nascimento. A vida e obra do escritor foram evocadas numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal, que decorreu na Biblioteca com o seu nome. As comemorações do nascimento de António Vicente Campinas começaram em 2010 com a inauguração de duas exposições na Biblioteca Municipal, mas prolongaram-se por todo o ano de 2011.

    A Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António teve patente duas exposições integradas nas comemorações do centenário do nascimento do escritor: uma mostra filatélica organizada pela Secção de Colecionismo dos Bombeiros Voluntários, bem como a exposição “Vicente Campinas – O Homem e o Escritor – 100 Anos”, organizada pela própria biblioteca e composta por documentos do escritor, notas manuscritas e diversos painéis explicativos. Foi também lançado um selo e um postal comemorativos do centenário do nascimento do escritor. E, por ocasião do 109ª aniversário do nascimento de Manuel Cabanas, a Liga dos Amigos da Galeria Manuel Cabanas levou a cabo um programa de comemorações que incluía Vicente Campinas, conterrâneo e amigo daquele outro ilustre vila-realense: “Manuel Cabanas e Vicente Campinas – Uma Relação de Amizade”. Em Abril, na Biblioteca Municipal, realizou-se uma palestra com Teresa Rita Lopes e Rui Moura (que musicou poemas de Vicente Campinas); e, por fim, em Setembro, teve lugar, também na biblioteca, uma tertúlia com familiares, amigos e conhecidos de Vicente Campinas.

    O historiador António Rosa Mendes 1954 – 2013, patrono do Arquivo Histórico Municipal de Vila Real de Santo António tinha uma grande admiração pela obra de António Vicente Campinas e pela atenção ao pormenor de refletir as gentes que viviam e labutavam no ambiente de trabalho marítimo das fábricas e das pescas.

    Rosa Mendes ainda participou na homenagem prestada a Vicente Campinas, faz hoje precisamente dez anos, no auditório da Biblioteca Municipal que porta o seu nome. Tiveram um dos pontos altos no dia 8 de Janeiro de 2011, quando dezenas de pessoas encheram a sala de sessões da Biblioteca Municipal, para ouvirem o vereador José Carlos Barros e o historiador António Rosa Mendes falar sobre a vida e a obra do escritor vila-realense.

  • Vicente Campinas, o homem da beira-rio

    Vicente Campinas, o homem da beira-rio

    Conheci António Vicente Campinas ainda muito novo, quando me deslocava à sua papelaria a comprar cadernos ou lápis e nem sequer sabia que aquele era o homem que tinha escrito um livro que repousava numa estante de corredor, em casa dos meus primos, onde o descobri e passava algum tempo a decifrar o significado daqueles poemas.

    “Aguarelas”, era um livro que consultava com regularidade, nas tardes quentes em que o sol deixava de ser de branco feérico, filtrado pelas cores algo fantásticas dos vitrais daquela peça da casa dos meus primos virada à Rua Almirante Reis, para mim mágica. 

    A minha curiosidade era aguçada pela capa de aspeto antigo, onde se misturavam diversos elementos sedutores, uma lira da música, um pincel e uma lata de aguarelas, flores e ondas do mar e umas letras que pareciam saídas dos prospetos do “Cine-Foz“. 

    Porém, habituado aos romances volumosos que o meu pai lia, repletos com parágrafos intermináveis, o mistério maior era o porquê da existência daquele livro magricela, com as frases partidas e pequenas e muitas palavras difíceis de decifrar. Não me recordo que idade tinha quando tive pela primeira vez na mão o “Aguarelas”. Sei que foi bem cedo e sei que aquele livro teve influência em mim, tanto como teriam mais tarde as “Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain.

    Só voltei a contactar com Vicente Campinas depois do 25 de Abril em torno de duas paixões que nos seduziam a ambos. O PCP e o Jornal do Algarve, onde colaborava com alguma regularidade, graças à paciência do então chefe de redacção José Manuel Pereira.

    E foi pela sua mão e influência que me escolheram para ocupar o cargo que JMP deixava, depois de o exercer com tanta competência e moderação, mantendo a chama acesa da Imprensa Regional e o carinho dos leitores, tal como o tinham feito o seu fundador e o filho. E foram ainda os conselhos de JMP e de Vicente Campinas que me guiaram nesses anos muito difíceis para a sobrevivência do jornal (1979-1983) , quando, por via da política monetarista de desvalorização do escudo, praticamente todos os meses os custos de produção prometiam submergir o jornal com a crise. 

    No Jornal do Algarve, Vicente Campinas escreveu também com o pseudónimo de António do Rio. A escolha deste nome para as suas crónicas, revela também, a par da obra, a profunda marca que no íntimo lhe terá deixado o sofrimento das gentes da “baixa-mar”. E entendi-o perfeitamente, porque a minha família materna trabalhou nas várias fábricas de conservas e a paterna embarcou nas traineiras e enviadas ou implicou-se nas descargas da “muralha”.

    Quem quiser conhecer a alma profunda da hoje cidade de Vila Real de Santo António, tem obrigatoriamente de ler ou reler Vicente Campinas. Até hoje, ninguém como ele, escritor do neo-realismo português de obra vasta e talento reconhecido, plasmou de forma tão realista as vicissitudes e falas daqueles a quem a vida castigou com o rótulo de um viver nos limites da fome e da necessidade. 

    Nos tempos da Pandemia de hoje, onde é preciso ir em busca de coragem para enfrentar os desafios do presente e perspetivar um futuro melhor, reler Vicente Campinas é partir à descoberta dessa gente humilde e das formas como superaram o dia-a-dia. É partir ao encontro da dureza das formas de relacionamento humano e do discurso direto, quando se está nos limites da sobrevivência, mesmo se, por detrás das palavras de cada personagem, anda implícito o amor, o sacrifício, a partilha e a dedicação.

    A obra de Vicente Campinas será sempre o quadro pictórico, vivo, da algaraviada da baixa-mar, quando cheirava a atum pelas ruas, se apregoavam as conquilhas, as traineiras, em pousio, enchiam o Guadiana e os cargueiros os cais da muralha, a cheirarem a alfarroba e a palha.

    Quero voltar a recordar a sua figura de homem afável, conversador, amigo, comprometido com a causa dos deserdados, a sua sabedoria experiência e conselhos, o seu amor a Portugal e à terra onde nasceu, os sacrifícios que fez pelos outros, quando a sua capacidade e talento lhe permitiriam ter uma vida descansada. Mas ele sabia bem que ninguém é livre quando os outros são escravos, que ninguém se pode sentir confortável quando para os outros sobra uma vida arrastada. 

    A nota biográfica de António Vicente Campinas, nascido em Vila Nova de Cacela, em 28 de Dezembro de 1910, pouco tempo depois da implantação da República, e trazido para Vila Real de Santo António um ano depois, encontra-se exemplarmente descrita no livro “Guardador de Estrelas“, uma antologia de Gil Furtado, editada em 1994, prefaciada pelo escritor Urbano Tavares Rodrigues.

    Ao homem, ao poeta, ao escritor, ao camarada e ao amigo, dedico estas linhas e, tal como há dez anos, faço votos para que seja sempre recordado como agora, em especial pela comunidade do concelho de Vila Real de Santo António, cujo povo amou e lutou para que tivesse uma vida melhor, que relativamente tem, embora os tempos sejam de dúvidas e de sombras.

    Descansa em paz que nós cuidamos da tua obra!

    8 de Janeiro de 2021

    José Estêvão Cruz

  • Virús bate com força em Olhão

    Virús bate com força em Olhão

    O presidente da Câmara Municipal de Olhão, António Pina, lançou um apelo na sua página do Facebook para que os cidadãos compreendam a necessidade de assumirem comportamentos para impedir a propagação do novo coronavirus.

    No apelo em que afirma que a situação de Olhão se está a agravar, António Pina alerta que o concelho entrou em 2021 «em situação de risco elevado, depois de 9 meses em que nos mantivemos em valores muito abaixo da realidade da região e do país».

    Diz o presidente da CM de Olhão que «bastaram poucos dias para sairmos do índice (casos por 100 mil habitantes, nos últimos 14 dias) de 150 e ultrapassar o indice 240, o que nos colocou em situação de risco elevado».

    Confirmando com números, revela que atualmente, o índice subiu a 342.3 e o concelho caminha passos largos para situação de risco muito elevado, se ultrapassar o valor 480.

    «Estes valores são o resultado da presença do vírus na comunidade olhanense e que potencializam o surgimento de surtos, ainda mais quando os concelhos vizinhos apresentam números ainda mais elevados (Faro:370,4 ; S. Brás: 441,6 ; Tavira: 1137,4)».

    Revela ainda que «desde o início do ano tivemos, por dia, 18, 22 e 17 novos casos respetivamente. Atualmente temos 137 casos ativos. A situação é por isso muito negativa e com tendência a agravar-se».

    António Pina dis que a situação só poderá ser revertida «se mudarmos o nosso comportamento e adotarmos as necessárias medidas de segurança já conhecidas de todos: distanciamento, higiene e uso da máscara.Desprezar ou negar a existência do vírus é um ato irresponsável que nos afeta a todos. Compreendo que muitos dos que cumprem se sintam impotentes para travar ou mudar os comportamentos alheios, mas não é possível ter um polícia para cada pessoa e nem sequer retirar a liberdade individual de cada um. Mas a este ritmo de evolução pandémica, essa mesma liberdade poderá ficar em causa, com restrições que nos afetarão a todos, enquanto indivíduos e comunidade. Vencer depende de todos e cada um de nós!», termina na sua nota.

  • Cavalgada de Reis

    Cavalgada de Reis

    A noite das prendas dos Reis, tempo de cavalgatas simbolizando a tradição cristã da oferta ao Jesus menino pelos reis Magos. Ãntoñi Rocío Juán Campina de Almonte, esta extraórdinária imagem de uma cavalgata de Reis que nos foi dado ver. Diz ela ser “A cavalgada mais bonita do mundo!!!! Espetacular!!quando se fotografa a magia, saem à estampa fotos como esta.

  • Câmara de Lagoa no Algarve dá vales a desempregados

    Câmara de Lagoa no Algarve dá vales a desempregados

    A esta iniciativa do Município de Lagoa já aderiu cerca de uma centena de estabelecimentos comerciais situados no concelho. A lista dos locais onde os vales podem ser utilizados estão divulgados na página oficial do Município de Lagoa na internet .

    O conjunto de espaços comerciais, prestadores de serviços e vendedores de produtos vários, é diversificado.  Os vales podem ser descontados no período compreendido entre 25 de janeiro a 25 de julho de 2021.

    Para além desta oferta direta aos desempregados do concelho, quem comprar no comércio local de Lagoa fica habilitado a participar em cinco sorteios mensais. Ou seja, compras de valor igual ou superior a 10 €, em qualquer dos estabelecimentos aderentes, dão direito a um cupão que depois de preenchido deverá ser colocado numa das tômbolas localizadas no edifício principal da Câmara Municipal de Lagoa, no Pavilhão Municipal Jacinto Correia, também em Lagoa, nas sedes e delegações das juntas de freguesia do concelho.

    Através desta campanha serão sorteados 10.000 € em Vales de Compras em cada um dos primeiros cinco meses de 2021. Será assim distribuído por sorteio, um total de 50.000 € destinado a compras nos estabelecimentos aderentes. O normativo deste sorteio pode ser consultado em ; De notar que as compras feitas com os vales recebidos não dão direito a cupão de participação.

    A autarquia justifica a iniciativa com «O impacto económico e social que as medidas de combate ao contágio da COVID 19 têm provocado na economia local e no poder de compra das famílias Lagoenses, entre vários bloqueios que a pandemia tem provocado de uma forma geral e indiscriminada, levaram o Município a adotar medidas extraordinárias de apoio e a prestar auxílio a quem mais necessita, reforçando o compromisso de não deixar nenhum Lagoense para trás», como explicou Luís Encarnação, presidente da Câmara de Lagoa.

  • Observatório Transfronteiriço do Guadiana quer dar voz aos cidadão das duas margens

    Observatório Transfronteiriço do Guadiana quer dar voz aos cidadão das duas margens

    Pretende que as principais associações sociais, económicas e de cidadãos possam contribuir de forma direta com informação para o processo de coesão que se encontra em desenvolvimento nos município de Ayamonte, Castro Marim e Vila Real de Santo António.

    O Observatório Transfronteiriço do Guadiana procurará fomentar a participação ativa dos cidadão nas políticas públicas que estão a ser articuladas no território da fronteira Sul das margens luso-espanholas e aspira a converter-se num instrumento de participação e análise global que se complemente com os mecanismos de participação e controlo que está a cargo do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, os quais já incluem os próprios projetos que desenvolvem.

    Para o arranque do observatório há uma subvenção concedida pelo Conselho da Presidência da Junta da Andaluzia que, este ano, inclui os Agrupamentos Europeus de Cooperação Territorial entre as possíveis entidades destinatárias de subsídios ao abrigo das ajudas para entidades de Euroregião Alentejo-Algarve-Andaluzia.

    No presente exercício está previsto o desenvolvimento da metodologia de trabalho, a realização de pelo menos duas reuniões e a criação de uma exposição itinerante com temática relacionada com a cooperação e os vínculos comuns dos três municípios.

    Da parte da Eurocidade do Guadiana, os responsáveis destacam que «é importante ampliar a participação dos cidadãos no desenvolvimento das políticas para o espaço social em que vivem e, ainda mais, no caso de uma experiência que consideram inovadora como é o articular o espaço transfronteiriço em planeamentos, estruturas e projetos que promovem a coesão, encarando a Eurocidade como uma unidade territorial.»

    O Observatório quer criar um modelo rigoroso, inovador e adequado para a avaliação as políticas de coesão, medindo o impacto e a incidência de diferentes procedimentos que se desenvolvam.

    Durante as próximas semanas vão ser iniciadas as reuniões com responsáveis de outos observatórios existente, para analisar as suas formas de procedimento.

  • Na morte de Carlos do Carmo amigo de Vila Real de Santo António

    Na morte de Carlos do Carmo amigo de Vila Real de Santo António

    Carlos do Carmo esteve a cantar em Vila Real de Santo António pelo menos por duas vezes. Uma em 1982 por ocasião da Festa da Paz e da Cultura e outra 25 anos depois, durante uma homenagem que o grupo «Cantar de Amigos» promoveu ao artista no Centro Cultural António Aleixo, a 4 de Novembro de 2007.

    Graça, desde que o conheci, foi sempre um admirador de Carlos do Carmo. Assisti muitas vezes às discussões no Cantinho do Marquês, quando o proprietário era Santos, que foi guarda-redes do Lusitano F.C., este grande admirador de Fernando Farinha, cantor muito popular conhecido pelo «Miúdo da Bica» e que, nos anos oitenta, também participou em Vila Nova de Cacela numa campanha eleitoral da APU.

    No vídeo que se segue, há um momento admirável, quando as crianças cantam em coro o fado com letra de Ary dos Sanos, «Os Putos» e depois o diálogo entre Carlos do Carmo com elas, para as convencer a deixar ouvir cantar dois fados novos, que demonstra bem a personalidade, a compostura do artista que foi ontem a sepultar e que não será esquecido na terra.

    Video da autoria de José Romão

    Cantar de Amigos convidou Carlos do Carmo, para o espetáculo realizado no Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António, no dia 4 de Novembro de 2007. O vídeo é de Zeca Romão que possui uma hemeroteca da vida de Vila Real de Santo António de alto valor para o conhecimento da realidade local.

    ./José Estêvão Cruz

  • CRESC ALGARVE financia apoio de Base Local

    CRESC ALGARVE financia apoio de Base Local

    Trata-se da criação de um instrumento de «política pública de apoio direto ao investimento empresarial produtivo, que terá como objetivo estimular a produção nacional, com especial enfoque no setor industrial, entre outros setores relevantes para estimular a produção nacional e a redução da dependência face ao exterior, primando pela agilidade de procedimentos, pela eficiência na gestão e pela eficácia nos resultados», segundo divulgou a CCDRA.

    Abrange a aquisição de máquinas, equipamentos, serviços tecnológicos de carácter digital e sistemas de qualidade, sistemas de certificação que alterem os processos produtivos das empresas, apoiando as na transição digital, na transição energética, na introdução de processos de produção ambientalmente mais amigáveis e que sejam, simultaneamente, um estímulo à produção nacional, de modo a promover melhoria da produtividade das empresas num contexto de novos modelos de negócios.

    As empresas deverão assumir o compromisso de manter os postos de trabalho, não havendo a exigência de criação de novos. Os projetos devem potenciar a diversificação da base económica e produtiva, com suporte na Estratégia Regional de Investigação e Inovação para Especialização Inteligente do Algarve (RIS3 Algarve).

    O aviso destina-se às micro e pequenas empresas de qualquer natureza e sob qualquer forma jurídica, nos termos do regulamento do SI2E, podendo as candidaturas ser apresentadas até às 19 horas de 26 de fevereiro de 2021.

    A dotação orçamental indicativa do FEDER afeta ao presente concurso é de 1.500.000 euros, com taxas de comparticipação variáveis entre os trinta e os sessenta por cento e são elegíveis são elegíveis como categorias de despesas, custos de aquisição de máquinas, equipamentos, respetiva instalação e transporte; b) custos de aquisição de equipamentos informáticos, incluindo o software necessário ao seu funcionamento; software standard ou desenvolvido especificamente para a atividade da empresa; custos de conceção e registo associados à criação de novas marcas ou coleções; custos iniciais associados à domiciliação de aplicações, adesão inicial a plataformas eletrónicas, subscrição inicial de aplicações em regimes de «software as a Service», criação e publicação inicial de novos conteúdos eletrónicos, bem como a inclusão ou catalogação em diretórios ou motores de busca; material circulante diretamente relacionado com o exercício da atividade, até ao limite máximo elegível de 40 mil euros; estudos, diagnósticos, auditorias, Planos de marketing, até ao limite máximo elegível de 5 mil euros; serviços tecnológico de natureza digitail; e sistemas de qualidade e de certificação, até ao limite máximo elegível de 50 mil euros.

    A obras de remodelação ou adaptação, para instalação de equipamentos produtivos financiados no âmbito deste projeto, são financiadas com um limite de 60% do investimento total elegível apurado, desde que contratadas a terceiros não relacionados com o adquirente beneficiário dos apoios, não sendo financiados materiais de construção adquiridos autonomamente.

    Consulte o aviso AQUI.

  • Resposta Social na área da Infância em Mértola

    Resposta Social na área da Infância em Mértola

    Devido à suspensão dos serviços prestados pela Santa Casa da Misericórdia de Mértola nas respostas sociais – CRECHE e CATL, por motivos que se prendem com um surto de Covid 19 na ERPI (LAR), a câmara municipal de Mértola informou os pais e encarregados de educação dos alunos que frequentam a CATL – Oficina da Criança que o prolongamento de horário decorre na Escola Básica de Mértola, com horário de abertura às 7h45 e termo às 19h00, sendo o mesmo assegurado pela Autarquia em articulação com a Santa Casa da Misericórdia.

    Quanto à reabertura da creche, informa que, pela especificidade da resposta é necessário que os pais e encarregados de educação, com real necessidade, façam uma manifestação da mesma para o email: mariamartins@cm-mertola.pt , de forma a ser possível avaliar uma eventual resposta.

    Dos 70 utentes do Lar, apenas seis testaram negativo e o número de mortos subiu para oito, nas últimas 24 horas, cinco mulheres e três homens. Tinham mais de 90 anos e problemas graves de saúde.

    Os números estão em constante atualização. Há mais de 100 pessoas infetadas no surto e a informação que chega do interior descreve a situação como muito grava.

  • Alívio na retenção de IRS para salários e pensões

    Alívio na retenção de IRS para salários e pensões

    No final do mês, devido ao facto do Governo ter tomado a decisão de baixar o valor da taxa de retenção do IRS, os portugueses vão descontar cerca de menos 2% do seu rendimento.

    Não se trata de um aumento. No próximo ano, devido a esta não retenção, o eventual valor a receber a partir de maio será naturalmente menor.

    Trata-se, na ótica governamental de um esforço para aproximar os valores entre a soma o imposto que é retido mensamente e o do apuramento final do pagamento.

    Para o executivo, a medida tem um impacto de 200 milhões de euros no aumento do valor disponível para as famílias, em especial da classe média, que considera ter sentido os seus rendimentos reduzidos pela chegada da pandemia da Covi-19.

    A esta medida de devolução de rendimentos, o Governo acrescenta que a incidência do IRS só passa a existir a partir do rendimento de 686 euros, preservando o novo salário mínimo de 665 euros e as pensões que beneficiem do aumento extraordinário previsto no Orçamento do Estado.

  • Lugares do Guadiana – Brumas

    Lugares do Guadiana – Brumas

    Vídeo da autoria de Kim Morgado

  • Foz do Guadiana

    Foz do Guadiana

    Fotografia tirada ao nascer do sol sobre terras de Espanha, na barra do Rio Guadiana.

    Foto de Joaquim Bartolomeu

  • Acerca de Sopros Milagrosos

    Acerca de Sopros Milagrosos

    Crónicas Avulsas

    Alguns dias atrás, ao tentar cortar uma fatia de um pão alentejano, a lâmina dentada da faca desagarrou-se da côdea estaladiça da cabeça e mordeu-me num dedo. Os bicos da serra só pararam de raspar a pele quando bateram na base da unha. Felizmente foi escoriação superficial. Sacudi a mão e soprei a ferida. Fi-lo por instinto ou talvez na procura de um milagroso alívio imediato para a dor. A escorrer um fiozito de sangue sem grande importância, corri para a caixa de primeiros socorros em busca da água oxigenada, da Betadine, do algodão e do rolo da gaze. 

    Condicionado por saber que hoje em dia qualquer produto de consumo tem prazo de validade, procurei a data limite de utilização e descobri que a da Betadine estava ultrapassada desde há já mais de um ano. Havia-a comprado quando mudei de casa sem que alguma vez a tivesse utilizado: em pensamento, agradeci por o mesmo não ter acontecido ao algodão ou à gaze. Limpei o sangue com a água oxigenada e soprei o golpe antes de enrolar o dedo. Não sei se o fiz para secar e criar cascarrão mais depressa, se foi para curar melhor, se por um automatismo inconsciente adquirido.

    Não me recordo de que o mercúrio cromo do frasquinho de vidro castanho e rolha de cortiça que o meu pai comprava avulso ao senhor Jorge ou ao senhor Jacques na farmácia Carrilho, para besuntar de vermelho vivo os joelhos raspados dos seus filhos, tivesse algum prazo para ser consumido: durou toda a nossa meninice e ainda sobrou mais de meio frasco! 

    Na brincadeira, fazíamos desenhos na pele usando um pedaço de algodão em rama ensopado em mercúrio. Antes de este aparecer nas farmácias, havia a tintura-de-iodo de cor castanha que fazia arder a carne das feridas obrigando-nos a soprar e, que me lembre, também não tinha essa modernice do prazo de validade.

    Sem que tivesse alguma vez visto alguém fazer isso, havia malta que dizia ser bom para as feridas, dá-las a lamber a um cão da rua por eles curarem assim os seus ferimentos, sem precisar de nada mais. Para limpar e sarar feridas, eu preferia soprar para ver se estancava o sangue e, quando chegava a casa, usava água oxigenada e mercúrio cromo. Às vezes tapava a ferida com um “curita”. Nunca me atrevi a dar a lamber a um cão. O meu pai falava muito das infecções e eu tinha medo disso. Para rebentar e coser com linha de alinhavar as bolhas de roeduras nos calcanhares, o meu pai desinfectava as agulhas com que a minha mãe costurava os vestidos das suas clientes, queimando-as num bocadinho de algodão embebido em álcool antes de as espetar.  

    Quando a comida ou a sopa estão muito quentes, contraímos os lábios formando uma abertura circular e sopramos para arrefecer, da mesma forma que quando o fósforo que seguramos foi consumido até a sua chama nos tocar dolorosamente a pele, sacudimos a mão e assopramos a ponta dos dedos.

    Creio ter em anterior crónica referido o momento em que o meu filho Max apanhou uma irresistível pastilha elástica da calçada e, depois de a soprar, tê-la enfiado na boca para a mastigar. Ao ser repreendido por mim, usando eu o fortíssimo argumento de que o “estica” estava infectado com os micróbios do chão, ele desarmou-me respondendo que tinha olhado e não tinha visto nenhum!

    Quando deixamos cair no chão um qualquer objecto, ao recolhê-lo, mesmo que não haja sujidade visível, acontece frequentemente sacudirmos e soprarmos antes de o arrumarmos no seu sítio. Será para limpar de eventuais porcarias, para afastar micróbios indesejáveis ou devido a um qualquer ritual de purificação ancestral?

    Talvez esse tipo de reacção espontânea justifique o comportamento de um senhor que passeava à minha frente: ao se ter apercebido que a máscara profiláctica que guardara no bolso das calças havia caído ao chão, interrompeu a marcha para a apanhar. Voltou a enfiá-la na algibeira, não sem antes a sacudir, batendo-a duas vezes na coxa e, depois, com toda a naturalidade, assoprar vigorosamente.

    Já me aconteceu a mim, a acção é absolutamente mecânica, não se pensa na asneira que se faz, até parece que o acto de sacudir e de assoprar, para além de retirar sujidade que se tenha eventualmente agarrado, repele qualquer perigoso micróbio e, nestes duros tempos de pandemia, ser muito eficaz contra os vírus! 

    Henrique Bonança

    VRSA – 01 de Janeiro de 2021

    PS – Após honroso convite do responsável do guadianadigital.pt, iniciei colaboração com esse jornal digital, pelo que também poderão encontrar e ler as minhas crónicas nesse “site”.

  • Acordo histórico sobre Gibraltar

    Acordo histórico sobre Gibraltar

    Um acordo alcançado em cima da hora entre Espanha e o Reino Unido pode trazer Gibraltar para o espaço Schengen, eliminando a fronteira, desde que a União Europeia o sancione.

    Está previsto no pacto que o aeroporto e o porto de Gibraltar recebam o controlo fronteiriço europeu, aligeirando a ligação entra La Linea e o Penedo, segundo apurou o diário Huelva Información.

    Até lá, são necessárias negociações entre a UE e o RU para dar cobertura legal ao acordo em forma de tratado de incorporação, tutelado por Espanha no que respeita ao espaço Schengen.

    A matéria afigura-se complexa. Os nossos vizinhos esperam a criação de uma área de prosperidade proporcionada por este acordo, na porta que se encontra aberta contra um Brexit duro.

    Para os moradores no campo de Gibraltar, uma passagem fluida vai contribuir para a melhoria da situação económica. São 15.000 pessoas que atravessam a Verja para trabalhar, numa economia que, feitas as contas pelo município de La Linea, gera 695 milhões de euros.