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  • Crónicas Avulsas: Acerca de Vida, de Diagnóstico e de Doença

    Crónicas Avulsas: Acerca de Vida, de Diagnóstico e de Doença

    Autor: Henrique Bonança

    Encontrei-o, tal como das outras vezes, à entrada de uma das portas do mercado municipal, zona de muito movimento de pessoas; se da última vez que ali o vi, surpreendentemente, vendia à comissão uma espécie de ameijoas de casca escura, desta, embora pequenas e a que antes ninguém ligava, voltara às conquilhas de toda a vida; com toda a certeza, apanhadas na última maré, rasgando com muito esforço as areias da praia de Monte Gordo, meio submerso em águas invernosas e frias, suportando nortadas geladas, a puxar o “arrasto-de-cintura”, de pé descalço e, imagino, de cigarro apagado nos lábios;

    Ao ver-me, para dois dedos de conversa, educadamente, afastou-se da caixa de esferovite abandonada no chão encardido, aproximando-se de mim; acabado de chegar da praia, pedalando a sua bicicleta pela estrada da mata, agora a descansar encostada a uma das paredes do edifício, “oferecia” marisco fresquíssimo aos fregueses passantes, condição facilmente comprovada pelos finos jorros de água salgada lançados em arco para o ar, encharcando a calçada em redor!

    Espantei-me por ver conquilhas à venda, tão raras nos dias de hoje: dizem que pelos turistas que as apanham ainda bebés, para o petisco da tarde, pelos inúmeros arrastões espanhóis que lavram as areias ou, também, pelo excesso de captura dos mariscadores tradicionais!

    “Parvoíces, a razão é outra!” – respondeu-me ele!

    Quando me disse que havia poucas conquilhas por causa da chuva, manifestei sincera surpresa; “no ano passado choveu muito e, neste, ainda mais!”, insistiu; sem me dar tempo de argumentar, continuou: “ muita água doce a vir pelo rio, muitas descargas das barragens…as conquilhas, ao sentirem essa água, para não se afogarem, enterram-se mais do que o normal e os dentes dos arrastos não chegam até elas!”.

    E, enquanto se afastava para aviar uma “medida” a um cliente que o chamara, terminou a conversa dizendo: “a praia é muito grande, não são os arrastos-de-cintura ou os arrastões espanhóis que acabam com as conquilhas!”.

    Confesso que me faltaram os argumentos para contrariar a firme opinião de quem lida e vive da apanha da conquilha: afinal, parece ser só uma questão de instinto de sobrevivência da espécie;

    A nossa mãe natureza e as suas próprias dinâmicas!

    Não muitos dias atrás, não sei em que canal televisivo, nem sequer recordo qual era o tema abordado pelo moderador, escutei um comentador convidado, médico cirurgião famoso, contador de estórias da vida, senhor sempre muito bem humorado, que, recordando os seus tempos de estudante de medicina, avançou com uma muito singular “tirada”: “…a vida é uma doença crónica, sexualmente transmissível, de diagnóstico irreversível!”;

    Ou seja, pelo raciocínio enunciado que sustenta a afirmação, se a vida é uma doença crónica irreversível, a morte será a salvação desse padecimento, a cura ou o remédio que nos libertará dos sofrimentos da vida!

    Todos os que morreram, ao partir curaram-se, logo, todos os vivos estão doentes!

    Sinceramente, para lá da lógica do silogismo, tenho muita dificuldade em aceitar que assim seja!

    De facto, claramente, a acreditar no sentido da polémica afirmação, uma vez que a vida é uma doença sexualmente transmissível, a paixão e o enamoramento, emoções ou sentimentos de muito difícil controlo, provocam a aproximação e interacção ou intimidade entre pessoas de qualquer sexo; estando essas pessoas infectadas por esse fatal vírus de origem desconhecida, serão elas perigosos agentes propagadores dessa terrível maleita, de que só nos livramos com a sempre libertadora morte;

    Uma coisa é certa, sendo a vida uma doença com diagnóstico ao mesmo nível de uma condenação com pena perpétua, sem medicamentos conhecidos que permitam uma prescrição eficaz que a combata, incrivelmente, excluindo aqueles que pelas suas circunstâncias pessoais, envolvendo sofrimento físico ou emocional, estarão disponíveis para apressar o fim, todos os outros querem manter-se saudavelmente doentes!

    Sempre no seguimento do raciocínio anteriormente referido, o instinto de sobrevivência comum a todas as espécies, na nossa será racionalmente inexplicável e contraditório: tendo em conta a doença vitalícia e todo o sofrimento associado, afinal, qual a razão para tão grande esforço e investimento em investigação científica?

    Então, fica por explicar o sentido de tantos recursos alocados à busca da receita certa para adiar pelo maior tempo possível o final, a cura que ninguém parece desejar!

    Henrique Bonança

    Quinta do Sobral, 18 de Janeiro de 2026

    PS1 – Escrevi este texto no preciso dia em que soube do falecimento do meu amigo António Pereira, profissionalmente partilhámos e construímos um caminho de amizade, de respeito e de confiança mútua!

    PS2 – O meu colega e amigo Vítor Barros, economista e filósofo, sem ter eu a certeza de o ter conseguido, poderá talvez reconhecer neste texto que resulta de um sempre difícil esforço de compactação, elementos do pensamento de Platão, de Schopenhauer e de Aristóteles!

  • Starliner regressou sem os astronautas

    A cápsula Starliner da Boeing já deixou a Estação Espacial Internacional, para regressar à Terra.

    Contudo e por persistirem preocupações de segurança com o dispositivo, só em fevereiro é que os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams tem previsto o regresso, a bordo de uma Dragon da SpaceX, de Elon Musk.

  • Bactérias benéficas da vida vegetal

    Bactérias benéficas da vida vegetal

    A evolução das plantas terrestres a partir de ecossistemas aquáticos veio com desafios: adaptação para sobreviver a ambientes hostis e coevolução com outras formas de vida, como bactérias.

    As bactérias são uma das formas de vida mais antigas da Terra e representam cerca de 13% da biomassa total (medida em toneladas de carbono) vista em nosso planeta. As plantas terrestres desenvolveram relacionamentos positivos com algumas bactérias, sem as quais não podem prosperar facilmente. Aumentar o rendimento das colheitas por meios sustentáveis, como bactérias benéficas , terá um impacto positivo para a humanidade.

    Nenhuma planta é uma ilha. As plantas vivem em comunidades, coexistindo com outras formas de vida, como micróbios e animais. A comunicação entre plantas e micróbios é invisível para nós, mas forma uma parte fundamental de suas estratégias de sobrevivência sedentárias. Embora algumas dessas interações possam ser prejudiciais à vida vegetal, há vários efeitos positivos nas relações planta-micróbio.

    O que está por baixo

    Um bom solo é essencial para uma planta saudável. O solo é rico em micróbios: uma colher de chá de solo contém cerca de um bilhão de micróbios. Assim como o microbioma intestinal humano (população de micróbios), que permite um sistema imunológico saudável, o microbioma da planta nas raízes (rizobioma) é único para cada planta e fornece um estilo de vida saudável.

    Sem micróbios do solo, a vida vegetal seria praticamente inexistente, com plantas muito fracas e doentes. A rizosfera que envolve as raízes das plantas contém bactérias, fungos e nematoides, e aqui destacamos como as bactérias beneficiam as plantas.

    Probióticos para plantas

    Bactérias favoráveis ​​às plantas no solo são agrupadas em rizobactérias promotoras do crescimento vegetal (PGPR) que vivem livremente no solo, ou endófitos que colonizam e vivem entre ou dentro das células vegetais.
    PGPR, como o nome sugere, beneficia o crescimento das plantas ao colonizar raízes. As plantas escolhem seus parceiros microbianos secretando açúcares, hormônios e outros compostos no solo; PGPR específico, por sua vez, é atraído para a rizosfera da planta e secreta seus próprios hormônios. A comunicação entre bactérias e hormônios vegetais regula o crescimento efetivo das raízes e protege a planta de micróbios patogênicos.Sem micróbios do solo, a vida vegetal seria praticamente inexistente.

    PGPR secretam antibióticos que matam bactérias patogênicas e enzimas degradadoras da parede celular que inibem o crescimento de patógenos fúngicos. PGPR pode induzir resistência da planta a herbívoros produzindo toxinas específicas ou voláteis que afastam pragas atacantes. PGPR também pode atuar como uma vacina protegendo plantas de danos futuros de herbívoros e até mesmo através de gerações, agindo em sementes. Além disso, PGPR libera produtos químicos e torna os minerais do solo mais disponíveis para a planta; isso aumenta a aptidão da planta para estresses ambientais como seca, salinidade, calor e metais pesados.

    Nitrogênio acessível

    Bactérias probióticas de plantas também incluem endófitos, que vivem simbioticamente dentro das plantas. As plantas precisam de nitrogênio para a formação de clorofila, bem como DNA e proteínas, mas ele não está em uma forma biologicamente disponível na Terra. Algumas bactérias que vivem em solos usam uma enzima especial (nitrogenase) para mudar (ou “fixar”) nitrogênio atmosférico em amônia sob condições anaeróbicas; as plantas então usam a amônia para formar moléculas essenciais. Bactérias rizóbicas fazem isso em estreita colaboração com plantas leguminosas (por exemplo, feijão, ervilha) dentro de estruturas anaeróbicas especiais formadas em pelos radiculares, chamadas nódulos.

    Crédito da foto: Ninjatacoshell, CC BY-SA 3.0 , via Wikimedia Commons

    Outras espécies bacterianas, como diazotróficas, vivem na rizosfera de culturas de cereais e fixam nitrogênio sem produzir nódulos. Os campos de arroz são ricos em cianobactérias (bactérias que fazem fotossíntese) que podem fixar nitrogênio. Algumas espécies de milho produzem mucilagem pegajosa em suas raízes aéreas que aumenta o crescimento de bactérias fixadoras de nitrogênio. No entanto, para cereais, a fixação natural de nitrogênio não é suficiente para suportar um aumento no rendimento da planta. Esforços estão em andamento para aumentar a capacidade dos cereais de interagir com esses micróbios, reduzindo o uso de fertilizantes de nitrogênio poluentes, permitindo a produção sustentável de alimentos.

    O mundo oculto acima do solo

    Tão importante quanto a rizosfera é a filosfera, as regiões aéreas da planta colonizadas por micróbios oriundos do solo, sementes e ar. Assim como os animais têm micróbios em suas superfícies para ajudar a manter um estilo de vida saudável, a filosfera ajuda a manter uma planta saudável ao evitar o crescimento excessivo de patógenos. A filosfera afeta a qualidade do néctar nas flores, manipulando assim o comportamento do polinizador, a longevidade das folhas e o desenvolvimento dos frutos. A composição bacteriana na filosfera é afetada pelas mudanças climáticas, e mais pesquisas são necessárias para entender como isso afeta a produtividade das plantas. A sobrevivência futura das plantações depende da proteção e enriquecimento do microbioma da planta.

    Dra. Radhika Desikan.

    Licença Creative Commons
    (CC BY-NC-ND 4.0)