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  • Opinião – Acerca Daquilo Que Me Recordo da Avenida de Outros Tempos, do seu Comércio, das Pessoas

    Opinião – Acerca Daquilo Que Me Recordo da Avenida de Outros Tempos, do seu Comércio, das Pessoas

    Crónicas Avulsas – Henrique Bonança


    Acerca Daquilo Que Me Recordo da Avenida de Outros Tempos, do seu Comércio, das Pessoas


    Desde logo do icónico café Firmo, do cartaz afixado a proibir os trabalhos manuais às senhoras que passavam as suas tardes na conversa, a fazer malha ou croché e a bebericar um garotinho sentadas nos sofás forrados a napa preta e com os apoios de braços de cor verde, enquanto observavam o interminável vai-e-vem dos que se passeavam lá fora, dos inesquecíveis gelados de corte e de mola da tia Camila a entremear duas saborosas e crocantes bolachas; do pronto-a-vestir Trindade Coelho do senhor Duarte e das suas montras compostas com muita arte e muito bom-gosto, das medidas de madeira e das alcofas cheias de ervelhanas da Tia Maria de saias largas e lenço na cabeça, encostada ao canto exterior da loja, sentada num banquinho de madeira.
    No entanto, se vindos de poente entrássemos na central rua pedonal dos mosaicos para nela comprar, beber café nalguma das suas esplanadas ou simplesmente passear, do nosso lado direito nos depararíamos com a mercearia e riquíssima garrafeira do senhor Madeira, a casa Dynia, ponto de paragem quase obrigatório da criançada pelo facto das suas montras salientes, a partir da quina de metal cromado que as protegia, reflectirem o movimento de uma das pernas criando a ilusão de que seriam duas.
    Praticamente em frente, do outro lado da avenida, com certeza para passar o seu tempo e satisfazer a sua curiosidade, assomando-se às janelas abertas de uma casa térrea de paredes caiadas de branco e platibanda a esconder o telhado, apoiando os cotovelos em almofadinhas, duas irmãs gémeas já idosas, entretinham-se a ver quem por ali se passeava.
    Umas casas a seguir, deparávamo-nos com o Empurre, famosa cervejaria de saborosíssimas tapas e iguarias regionais, onde os clientes se dessedentavam ao balcão de madeira envernizada com imperiais bem tiradas e frescas acompanhadas de tremoços ou ervelhanas ainda na sua frágil casca estaladiça servidas em pires das chávenas de café.
    Continuando no mesmo lado, quase à esquina desse quarteirão, antes de se converter em loja de atoalhados, existia a marcenaria do senhor Gastão, local onde também trabalhava um outro senhor conhecido como Fato Justo, uma vez que se dizia que os caixões ali construídos eram apertadinhos para poupar na madeira.
    A recordação mais antiga, seria eu muito novo, é a do café Portugal, local que conheci por ser lá levado pelos meus pais, tendo gravado na memória um comentário quanto à grande qualidade dos chocos que ali eram cozinhados; em frente à estalagem da Hortinha, espaço onde anos mais tarde foi edificada a actual estação dos correios, localizava-se o café Piquenique, como ele era conhecido, apesar de alguém me ter dito que o seu nome seria outro, local que frequentei algumas vezes com o meu pai, aonde tive a oportunidade de ver uma televisão pela primeira vez na minha vida, experiência marcante que me deixou extasiado.
    Mas, antes do café Piquenique, na mesma fileira de casas, para além da barbearia do senhor Corvo e da pastelaria e cafetaria Ideal do senhor Dourado, recordo o estabelecimento do senhor Marinheiro, entre outras razões, pela fantástica exposição de comboios eléctricos que tanto me atraía, prendendo-me à montra por largos períodos imaginando-me a brincar às estações e, anos mais tarde, em tempos posteriores à revolução de 74, ter na sua montra um anúncio em que se dizia aceitarem-se inscrições num determinado partido político, indicando a condição de se ser apoiante da linha de um dos seus dirigentes históricos.
    No andar de cima da sapataria Duarte, nas suas duas janelas viradas para a avenida cujos mosaicos se esticavam para cada um dos lados, em cada uma delas, muito arranjadas e de lábios pintados de vermelho vivo, como que a vigiar o que se passava junto ao solo, quando o sol já não batia na parede pintada de cor-de-rosa e pelo fresquinho da tarde, punham-se a ver passar outras duas irmãs gémeas tão iguais que era impossível distingui-las cá debaixo.
    Embora não na avenida mas, logo ao virar da esquina da sapataria, na lateral do quarteirão seguinte, encontrávamos a drogaria do senhor Faísca, local de trabalho do senhor Lenine e o senhor Agostinho, estabelecimento antigo onde a pedido do meu pai ia comprar palha-de-aço ou pregos a peso ou, ainda, massa para fixar os vidros das janelas lá de casa.
    Outra vez na avenida, à esquina, a pastelaria Império onde trabalhava a dona Augusta vendia gelados da Olá, rifas em caixas de cartão em que se fazia um buraco para saber qual era o prémio, sombrinhas de chocolate da Regina e, sobretudo, bolos do senhor Parquico: gostava muito dos pastéis-de-nata, do bolo-de-arroz e dos pastéis de feijão que comprava quando tinha dinheiro para isso.
    Em frente ao café Cantinho do Marquês, local de trabalho do senhor Joaquim, do senhor Chico, do senhor Rufino, do senhor Delmar e de outros cujos nomes já não me lembro, situava-se a Casa Capa que abastecia as mercearias e onde os sapateiros que ainda havia na vila iam comprar o couro para as meias solas dos sapatos que arranjavam.
    Claro, como esquecer a barbearia do senhor Padesca, situada antes da sapataria Duarte, que cortava o cabelo ao meu primo Cavaco e que eu acompanhava para entre muitas gargalhadas nossas, nos ser mostrado o pequeno boneco trajado de frade a que o barbeiro puxava um fiozinho escondido nas vestes para levantar e expor as suas partes intimas.
    Para além da Casa Raposo, pronto-a-vestir que até samarras alentejanas vendia e da sua raposa empalhada com óculos de arame apoiados no focinho a dar-lhe ar de grande intelectualidade em harmonia com o nome da loja, espaço ainda para recordar o estabelecimento do senhor Gravanita pela particularidade de ser onde a minha mãe me pedia para ir, para que a dona Risete puxasse as malhas caídas das suas meias-de-vidro.
    Henrique Bonança
    VRSA – 05 de Maio de 2022
    PS – Por economia de espaço, a partir de memórias antigas, apenas referi estes locais e estabelecimentos. Poderiam ser também outros, nomeadamente aqueles que existiam no interior e à volta do antigo mercado da verdura, hoje Centro Cultural António Aleixo. Talvez noutro momento, num outro texto!

  • Opinião | A joia da coroa de Vila Real de Santo António

    Opinião | A joia da coroa de Vila Real de Santo António


    Tudo o que já deveria ter sido feito!

    Na realidade Vila Real de Santo António tem uma das joias por lapidar mais importantes do concelho, no sentido de se fazer um projecto verde, verdadeiramente estruturante para a economia e turismo local.

    A zona do pontão de Vila Real de Santo António necessita, com urgência, de uma intervenção de qualidade ambiental que faça, definitivamente, a requalificação daquela zona da cidade de Vila Real de Santo António e seja um polo atrativo para visitantes e locais, com a manutenção da qualidade ambiental e características únicas daquela zona esquecida de Vila Real de Santo Antonio.

    A entrada necessita desde já um projecto interpretativo de Santo António de Arenilha. a aldeia piscatória que tinha igreja e casas onde se alojavam os pescadores e primeiros habitantes de Vila Real de Santo Antonio, verdadeiro embrião da nossa cidade, e como forma de perseverar a nossa identidade e a origem dos nossos antepassados.

    Relembrar que o sino da igreja de Santo António de Arenilha, encontra-se no museu do Castelo de Castro Marim.

    O pontão necessita urgentemente de obras de pavimentação e de implantação de condições de segurança, sinalização e adequação do espaço, para que haja uma circulação segura e para que não voltem a acontecer acidentes como o que tivemos recentemente com Carla Leal.

    A implementação de energias alternativas, numa zona bastante ensolarada, convida necessariamente o municipio a instalar uma rede de iluminação pública inovadora, completamente autónoma da EDP, sem os custos associados a ramais e a consumos de energia, desnecessários e bastantes onerosos, sabendo que existem verbas do fundo ambiental e do PRR.

    A pavimentação adequada, com alcatrão permeável ambiental, da estrada que leva até ao Caramelo com uma ciclovia, em TOPMIX PERMEABLE, nome dado a este revolucionário material que promete uma gestão eficiente de águas pluviais, gestão ambiental, custos reduzidos e facilidade na sua aplicação.

    Como a instalação de uma estrutura em madeira que permita, em toda a longitude da via, o estacionamento em espinha, o qual dará lugar ao quádruplo dos carros que estacionam atualmente no local.

    A requalificação dos passadiços de acesso à praia assim como a ligação dos mesmos ao passadiço de monte gordo como forma de aliviar a massificação da praia de monte gordo.

    Um dos grandes problemas atuais de Monte Gordo é a massificação desordenada do afluxo turístico entre julho e setembro, criando grandes constrangimentos da atividade que devia ser prazenteira e tornar-se, em muitos casos, um inferno estival, gerando muitas críticas e a desvalorização da oferta, quando, na realidade, deveríamos avançar para a certificação de Monte Gordo como um dos melhores destinos turísticos do Mundo.

    É necessária A criação de dezenas de marcos de incêndio, na longitude da praia de Santo Antonio até Monte Gordo, com furos a utilizar, água do subsolo como forma de precaução para futuros incêndios deveras previsíveis atendendo à galopante alteração climática.

    Também a instalação de pequenas bombas de rega com relógios, movidas a energia solar, como forma de arborizar a zona entre o pinhal e a estrada de acesso à praia, criando comodas zonas de lazer e de descanso para peões e atletas.

    Vila Real de Santo António necessita urgentemente desta intervenção. Lembramos que muitos visitantes preferem a cidade para passar ferias, ao invés de zonas turísticas descaraterizadas;preferem uma cidade com o centro comercial a céu aberto dinâmico e atraente, com comércio de qualidade com serviços com alma, com rio, com Espanha e com todo o levante incluindo os concelhos vizinhos de Alcoutim e Castro Marim, que com o nosso concelho também têm motivos vários de atracção cultural.

    Nota: Luis Camarada membro do Conselho Estratégico Municipal, tendo dado esta solução de investimento em várias reuniões do Conselho.

  • O equilíbrio ecológico na reivindicação da água

    O equilíbrio ecológico na reivindicação da água

    Nos últimos dias, devido às recentes chuvas que ocorreram durante a passagem das depressões «Irene» e «Juan», as redes sociais encheram-se de críticas ao não aproveitamento integral dos cursos de água que ainda não se encontram represados no Algarve, em situação crítica devido à seca, todos falamos.

    Empresários, responsáveis, políticos pressionam em duas direções, a primeira na repressão dos consumos, em medidas destinadas a aumentar a eficiência hídrica das canalizações, quer em alta, quer em baixa, a segunda no sentido de aumentar as disponibilidades de água para o crescimento económico e benefício do estilo de vida moderno.

    As barragens têm-se afirmado como estruturas que desempenham um papel crucial na gestão dos recursos hídricos em todo o mundo, oferecendo uma variedade de benefícios como geração de energia, controle de enchentes, e fornecimento de água para consumo humano e irrigação.

    No entanto, a construção e operação dessas estruturas não vêm sem um custo ambiental significativo. Um dos dilemas mais prementes associados às barragens é o balanço entre os benefícios proporcionados pela retenção de água e a perda ecológica decorrente da interrupção do fluxo natural de sedimentos para o mar.

    A geração de energia hidrelétrica é talvez o benefício mais citado das barragens, uma vez que se constituem como fonte de energia renovável, relativamente limpa. São também fundamentais no controle das enchentes e protegem milhões de pessoas que vivem em áreas propensas a inundações. Além disso, as barragens armazenam água para uso na agricultura, a espinha dorsal de muitas economias locais e globais, fornecendo água potável para comunidades ao redor do mundo.

    Mas não há bela sem senão, porque as barragens ao alterarem significativamente os ecossistemas aquáticos e terrestres, reduzindo o fluxo de sedimentos ao mar, provocam uma consequência ecológica grave.

    Não apenas afetam a biodiversidade aquática, mas também as praias costeiras, as quais dependem desses sedimentos para se manterem. Espécies de peixes e outros organismos aquáticos, muitos dos quais são vitais para a segurança alimentar de comunidades locais, enfrentam declínios devido à alteração de seus habitats naturais e à interrupção de ciclos de vida essenciais.

    Desta forma, toda a nossa reivindicação nesta área tem de balancear estas duas alternativas, com moderação, e apostar na eficiência de ambos os modelos, no respeito integral pelos caudais ecológicos definidos, mas tão desrespeitados e num consumo responsável e bem calculado.

    José Estêvão Cruz

  • Acerca do habilidoso Tomás

    Acerca do habilidoso Tomás

    Crónicas do Largo da Bica

    Da malta toda, o que dava mais toquezinhos com a bola era o Tomás. No que diz respeito a toques na bola, ninguém na vila lhe fazia sombra. Nem na Bica, nem nas Hortas, nem no Bairro Operário, nem no Bairro da Caixa, nem tampouco no Bairro da Lata. Ele era um prodigioso malabarista com a borracha. Fosse com os pés, fosse com as mãos. Um fenómeno do outro mundo. Só vendo!

    Eu não era dos piores da Bica. Desenrascava-me mais ou menos com 343 toques de bola no pé direito, de seguidinha, sem a deixar cair no chão. Nunca mais consegui bater esse record pessoal. Tentei durante anos. Quando me aproximava desse incrível número, antes de lá chegar, não aguentava mais: a perna de apoio fraquejava-me. A cada toque que dava, a coxa doía-me cada vez mais e o pé respectivo agarrava-se teimosamente às pedras da calçada. Por fim, apesar da minha vontade, da minha resistência, faltavam-me as forças e a bola escapava-se-me. À socapa, antes de ela cair, tentava apoiar-me a uma parede com a pontinha dos dedos mas, os gajos estavam atentos. Diziam logo que assim era batota e que não valia!

    A seguir vinha o Fausto com 424 toques. Um feito assinalável. Não é para todos. Quem jogou à bola quando era miúdo saberá reconhecer-lhe o mérito. Quando ele estabeleceu o seu fabuloso record, houve um invejoso que reclamou da sua validade. Isto porque ao toque 127, por uma insignificante fracção de segundo, a bola escapou-se-lhe do pé, batendo de raspão na parede da casa do Chico, irmão da Esmália e da Carminda da Rua Estreita. De facto, foi verdade que a bola bateu na parede mas, incrivelmente, esticando-se quase até rasgar a virilha, com a ponta do sapato, ele recuperou o controlo da bola que parecia mesmo ir cair ao chão. Apesar dessa miserável reclamação ciumenta o record foi registado e aceite.

    Mas, voltando ao Tomás, em toquezinhos, ele estava a um nível diferente. O record dele de 4.784 só não tinha outra expressão porque a malta, já cansada de tanto toque, ia-se embora para casa. Sem registo visual não havia reconhecimento. Era melhor ler um livrinho do Major Alvega ou um outro qualquer de cobóis do que estar ali a olhar para uma bola que parecia fazer parte integrante do pé.

    O segredo do Tomás era muito simples. Dava toques com os dois pés. Quando chegava aos quatrocentos, mudava de pé de apoio. Não se cansava nunca. Os toques não eram toques, eram toquezinhos. A bola mal subia, sendo mínimo o risco de perda do controlo da situação. Até parecia que estava atada ao pé com um elástico. Com domínio absoluto da técnica usada para os toques, entusiasmava-se e dificilmente parava. Dava para comer sandes de chouriço enquanto dava toques na bola.

    Uma tarde, já saturados, perguntámos-lhe em quantos ia. Ele mudou de pé de apoio, limpou o suor da testa com as costas da mão, e, sem se desconcentrar, respondeu: “vai em 2.345,6,7,8…”. Fomos para casa lanchar. Ao voltarmos, ainda ele dava toques.

    A rodar a bola na ponta dos dedos como fazem os jogadores de basquetebol, o Tomás também era o melhor. Começava no dedo indicador da mão direita. Quando a bola perdia velocidade, com a mão esquerda empurrava as orelhas da bola e, mudava de dedo. Ia para o polegar, voltava ao indicador, depois ao do meio, ao anelar, ao mindinho, a todos. Aquilo nunca mais acabava. Só mesmo o Tomás!

    Contudo, o que eu mais apreciava nele era o seu fino sentido de humor e a sua capacidade para inventar e contar estórias.

    Costumava dizer-nos que os dedos da mão eram os nossos ministros: o dedo polegar seria o ministro dos transportes por ser utilizado para pedir boleia; o dedo indicador seria o das obras públicas porque com ele se limpa o nariz; o dedo médio seria o da guerra porque quando se dá uma bofetada, ele vai à frente; o dedo anelar seria o das finanças por ser aquele onde se usam os anéis; o dedo mindinho seria o ministro do interior por ser com ele que se verifica se a galinha tem ovo.

    Se visse um carreiro de formigas pretas, dizia que elas iam para um funeral. A partir daí inventava uma qualquer estória em que falava da formiga. Coitada, morrera num terrível acidente, que alguém a pisara sem querer, que tinha sido muito trabalhadora, que tivera muitas amigas.

    Se as formigas transportassem algum alimento para o ninho, dizia que era uma procissão. A estória desenvolvia-se e ficávamos a saber que a formiga da frente era o padre, as outras carregavam os andores.

    Ao meu grande amigo Tomás Rita da Rua Estreita, portanto, do Largo da Bica com todos os direitos, um autêntico portento de imaginação e de habilidade com a bola!

    Henrique Bonança

    Altura – Fevereiro de 2018

  • CRÓNICAS DO LARGO DA BICA

    CRÓNICAS DO LARGO DA BICA


    Acerca de Milagres e de Mistérios

    Naquele fim-de-tarde saí de casa pela porta da frente, aquela que ao puxá-la de dentro se abria para a nesse tempo chamada de rua do Brasil. Ia encontrar-me com amigos para irmos passear à avenida dos mosaicos e dos cafés com esplanadas ou ao jardim que acompanhava a margem do rio, onde houvesse miúdas para serem olhadas. Ao fazê-lo, o Benfica de pêlo escuro encaracolado que passava as manhãs e as tardes a fingir dormitar no poial da porta da vizinha Maria João, a que ficava mesmo em frente, no outro lado da calçada da rua, levantou-se à passagem de uma bicicleta e, para afirmar a sua dominância territorial, escutando-se as suas unhas a raspar as pedras calcárias, correu atrás dela a ladrar furiosamente, quase a conseguir morder as pernas do imperturbável ciclista que nem se dignou olhar para o bicho, mantendo a mesma cadência molengona.

    Quase que não ouço a velha vizinha Maria chamar-me: à semelhança das outras vezes queria que eu atentasse aos seus últimos versos. Memoriava-os e com eles construía bonitas quadras rimadas com temas do seu quotidiano e de como ela observava e interpretava a vida. Depois, sem que jamais eles tivessem sido escritos, generosamente, dizia-os a quem passava.

    Confesso que das primeiras vezes tentei escapar-me. Todavia, a dona Maria impedia-o, segurando-me firmemente pelo braço, aproximando-se de mim. Não me dava qualquer outra alternativa. Tinha mesmo de a escutar. Nesse tempo, ainda não havia esquecido as muitas bolas que mal chutadas por algum de nós nalguma das nossas eternas jogatanas no Largo da Bica, depois de esvoaçarem em arco e caírem “ao pesinho” no seu quintal traseiro, eram devolvidas já espetadas por uma faca pontiaguda ou cortadas à tesoura, atirando-as por cima do muro da casa.

    Mas, esses eram tempos já muito remotos: na verdade, quando me libertei do peso dessas memórias e do rancor de nunca mais ter sido convidado para os aniversários da sua neta Paula, castigado por num deles ter comido demasiados pastéis-de-nata, pelos versos que escutava, descobri uma senhora sensível que, afinal, tal como eu hoje aos sessenta anos, privilegia a calma e o sossego e abomina o som de bolas a bater nas paredes.

    Uns anos mais tarde, pressentindo o final da sua vida, após escolher a roupa com que queria ser sepultada, a dona Maria comprou uns sapatos e pediu à filha que os levasse a um sapateiro para que se lhes aplicasse protectores metálicos nas biqueiras e nos calcanhares.
    A filha, perante tão estranho pedido, quis saber o porquê, tendo obtido como resposta que depois de morta, já na outra vida vindoura, sem saber por onde iria andar, nem sequer durante quanto tempo, o melhor seria partir desta bem calçada.
    Curiosamente, na sequência de uma desgastante doença prolongada, anos mais tarde, quando chegou a vez da sua filha, a dona Libânia quis que a criativa Paula lhe tratasse das unhas, pintando nelas como se fossem telas, belas flores de vários matizes. A justificação que deu à filha foi a de que tendo tido ao longo da sua vida terrena dois maridos que haviam abalado antes dela, queria chegar atraente e bonita ao outro mundo.

    Depois de vários meses sem comprar o semanário Expresso, para descansar dele e desenjoar, em Abril deste ano fraquejei e cedi ao irresistível chamamento vindo de uma banca de jornais encostada à parede de uma livraria e adquiri um dos exemplares. Anos a fio a consumir esse jornal em excesso, muito fragilizado, na fase crítica do desmame, não consegui resistir, contudo, também não me arrependi!

    Na sua revista, um dos cadernos que compõem o conjunto, deparei-me com uma interessante entrevista a uma escritora e jornalista que desconhecia.

    Claramente de formação católica, imbuída de conceitos de continuidade que incluem acreditar nalguma forma de vida depois da morte, aos seus 78 anos bem vividos, Leonor Xavier assevera convictamente que “o milagre é a vida, o mistério é a morte”.
    Ao escrever esta crónica, não pude evitar lembrar-me do alcance e impacto dessa afirmação. Com efeito, se alguns de nós atravessam a vida com a certeza de que ela é única e que tudo termina com a morte física, não havendo absolutamente mais nada, para muitos outros, com a morte física terrena inicia-se uma outra de características que ainda ninguém conseguiu definir, afastando definitivamente quaisquer dúvidas que possam persistir.

    No fundo, tentando ir ao encontro de Leonor Xavier, o milagre da vida será o somatório de todas as parcelas das nossas vidas desde o nosso nascimento, tal como o nascimento em si mesmo, de todos os tipos de vida, as do presente e as do passado, da nossa incapacidade de explicar racionalmente como foi ela criada e com que objectivo se é que ele existe; A incerteza do que está para além da nossa morte suscita e adensa o mistério: haverá mesmo algo? Será que existe outra vida? Que tipo de vida?
    E é essa convicção, a de que existe algo mais para além daquilo que conhecemos, que permite que alguns de nós adquiram o conforto espiritual que possibilita a aceitação da progressiva degradação física e do inevitável final da vida!

    Não por acaso a minha vizinha Maria mandou reforçar os sapatos com que caminharia pelos trilhos da outra vida. A morte física terrena deixa assim de significar o final de tudo, passando a ser simplesmente uma etapa pessoal que será cumprida, existindo outras ainda por vir!

    Henrique Bonança
    VRSA – 14 de Junho de 2021
  • Acerca de Vocações ou Chamamentos

    Acerca de Vocações ou Chamamentos

    Crónicas Avulsas

    É um facto que cada um de nós se diferencia de todos os outros indivíduos da nossa espécie e, por via dessa dissemelhança, podemos afirmar que todos somos seres únicos e especiais. Para além das diferenças físicas ou de carácter, aquilo que nos distingue dos outros pode não ser imediatamente perceptível, nomeadamente, a formação ou a educação que recebemos e de que beneficiamos. Sendo nós uma espécie de vida longa, nalgum momento desse percurso, as circunstâncias hão-de brindar-nos com a oportunidade de demonstrar que é mesmo assim.

    Para alguns essa ocasião surge-lhes depressa, quantas vezes sem que o percebam e sem qualquer esforço; para muitos outros, apesar da energia despendida nessa procura e da boa preparação para o efeito, a “chance” chega-lhes mais tarde. Quando assim é, convém não entrar em desespero e não atribuir responsabilidades a terceiros pela demora. É uma questão de estar atento e criar condições para que aquilo que se espera que aconteça, simplesmente aconteça: este exercício, sem que o pareça, pode dar um trabalhão imenso e, muitas vezes, implica recomeçar!

    A partir do 25 de Abril de 1974 fizeram-se grandes campanhas de alfabetização no nosso país para assim recuperar um vergonhoso atraso comparativo com outras realidades além-fronteiras, no entanto, apesar de até à época ter existido um elevado analfabetismo na população, impressiona a regular facilidade do aparecimento de extraordinários talentos a quase todos os níveis, desde a ciência ao desporto, passando pela literatura e pelas artes.

    De tantos talentos e vocações que brotaram e deram corpo à nossa identidade enquanto nação antiga de nove séculos, para ter algum critério inócuo, por terem falecido no mesmo ano em que eu nasci, atrevo-me a referir dois: por um lado, um incansável divulgador de poesia e de poetas portugueses, prodigioso declamador e extraordinário actor, cujo nome honra uma sala de teatro, o carismático João Villaret; por outro, o transmontano Stuart Carvalhais, ilustrador e caricaturista de olhar perspicaz, personagem tremendamente fascinante que perante as dificuldades da vida, para concretizar a sua obra, sem meios adequados, usava os materiais de que dispunha naquele momento, incluindo os paus de fósforo com que acendia os seus cigarros, para com a sua ponta queimada riscar a negro um qualquer pedaço de papel branco.

    Talento também nunca faltou na minha terra, a pombalina Vila Real de Santo António e, para não ferir indesejadas susceptibilidades, opto por apenas referir alguns dos que mais se destacaram na cultura e que já não estão entre nós: desde logo, Lutgarda Guimarães de Caires, poetisa e socióloga que dá o seu nome ao Largo da Bica onde nasci; António Aleixo, intemporal poeta popular repentista; Manuel Cabanas, talentoso mestre xilogravurista; António Vicente Campinas, poeta e grande prosador, que denomina a Biblioteca Municipal de VRSA e, por último, António Fernando dos Santos – Tóssam, pintor e ilustrador.

    Uma vez que o tema da crónica evoluiu para este tema do talento e da vocação que claramente lhe está subjacente, avançando para tempos mais recentes, o que não impede que a estória tenha já mais de quarenta anos, não posso evitar referir o sublime e inspirado concerto intimista do virtuoso Chico Cardoso, renomado músico vila-realense que acompanhou Carlos do Carmo no “Olímpia” de Paris ou que integrou durante anos a banda do José Cid, no hoje abandonado apeadeiro da CP em VRSA, numa noite cálida de verão, junto ao cais de embarque do “Ferry” para Ayamonte, a bater ritmadamente no aço dos carris que ali morriam com duas das pedras calcárias que os amortalhavam.

    A assistir embasbacados a tão memorável momento, estava eu e meu primo António Cavaco, sentados nas travessas de madeira enegrecida pelos despejos de combustíveis das desgastadas locomotoras, acompanhados pelo Luís Centeno, exímio tocador de guitarra, irmão do Mário Centeno, sem considerar mais algum outro amigo de que não me recordo e que porventura lá tenha estado; curiosamente, com excepção de mim e do enorme baterista Chico Cardoso, os outros três destacaram-se enquanto economistas com brilhantes carreiras profissionais.

    Vem tudo isto a propósito de uma conversa havida com dois jovens e talentosos músicos da minha terra. Em determinado momento, um deles, falando de percursos e projectos a concretizar num contexto de objectivos futuros, usa a expressão inglesa “Inner-calling” para justificar decisões pessoais de âmbito profissional.

    Com toda a naturalidade foi usado um anglicismo para abordar o tema do tradicional “Chamamento” ou “Vocação”, aquela inexplicável emoção sentida que vem de dentro de nós e que faz com que procuremos trilhar um determinado caminho.

    A curiosidade está no facto da utilização de expressões inglesas de tão transversal a toda a sociedade, tornou-se banal e quase não nos damos conta disso: nas empresas, o estagiário passou a designar-se por “Trainee”, existe o “Back-office” e o “Front-office” ou o “Feedback” e o “Back-up” só para dar alguns exemplos.

    A língua francesa, falada até na corte do czar russo, foi secundarizada e substituída pelo idioma de Shakespeare, a linguagem que quem quer ter êxito nos negócios, hoje praticados à escala global, tem obrigatoriamente de dominar.

    Longe vão os tempos em que se acreditava que o Esperanto, língua criada por um médico polaco com um daqueles nomes eslavos com mais consoantes do que vogais, seria a língua franca universal, facilitadora da comunicação entre diferentes povos e culturas.

    Hoje, mais de um século depois, esse papel é cumprido pela língua inglesa!

    ./Henrique Bonança

    VRSA – 22 de Janeiro de 2021

  • Acerca de Neandertais e da hibernação

    Acerca de Neandertais e da hibernação

    Crónicas Avulsas

    Henrique Bonança

    A ideia de induzir artificialmente a hibernação em massa da população planetária não é nova: fui confrontado com ela muitos anos atrás; a narrativa associada afirmava que seria essa a melhor forma de recuperar o nosso planeta e os seus seres vivos que não tivessem sido já extintos após uma qualquer catástrofe natural arrasadora ou da acção nefasta do próprio homem, bélica ou de outra índole.

    Outra alternativa apresentada para resolver o grave problema passava por alguns de nós, os sortudos contemplados no exigente processo de escolha em função da utilidade das suas competências, como contribuição para salvar a nossa espécie, qual passageiros da Arca de Noé, embarcarem em naves espaciais rumo ao espaço sideral e irmos estragar outro ou outros planetas nalguma galáxia distante.

    O meu primeiro contacto com ideias desse tipo foi muito precoce, enquanto adolescente sedento consumidor dos livros de bolso da fabulosa colecção Argonauta onde, algumas vezes sob pseudónimo, alguns cientistas narravam de forma romanceada e aventureira as suas teorias e a sua visão sobre o futuro da humanidade.

    Recordo autores como Isaak Asimov, Artur Clark, Robert Heilein, Philip Dick ou Ray Bradbury que fertilizaram e alimentaram durante anos a minha imaginação e os meus sonhos de rapaz. Na época, apesar dessas narrativas parecerem mirabolantes, a verdade é que com várias dezenas de anos de adianto, elas antecipavam a realidade que agora conhecemos, falando-nos de máquinas e utensílios com soluções tecnológicas corriqueiras e vulgares com uso universal nos dias de hoje.

    Nesses tempos já muito remotos, lia sôfrega e verdadeiramente empolgado estórias imaginárias vividas por personagens que se teletransportavam da nave almirante da esquadra para a superfície de um qualquer planeta onde viviam extraordinárias e arriscadas aventuras e se confrontavam perigosamente com criaturas bizarras.

    As viagens interestelares, com destinos noutros planetas a muitos anos-luz noutras galáxias, eram postas em prática usando enormes naves que atingiam velocidades impensáveis, com toda a certeza acima da velocidade da luz, capazes de com elas serem calcorreadas distâncias inimagináveis: só possíveis de percorrer em tempo de vida útil dos seus heróicos tripulantes, por estes serem mantidos em estado de hibernação durante a maior parte de um caminho que rasgava o incomensurável e frio vácuo intergaláctico.

    Os modernos filmes e séries televisivas de aventuras de ficção científica vulgarizaram estes conceitos; exemplo disso são as comunicações com a sua base operacional ou entre protagonistas em que são usados hologramas, pelo que não nos são estranhos. Qualquer adolescente ou adulto de hoje em dia, estejam eles onde estiverem, utiliza na sua vida diária um computador portátil ou um telemóvel com que a toda a hora, graças aos satélites geoestacionários colocados a cerca de trinta e seis mil metros de altitude tal como preconizou Artur Clark na sua obra literária, consegue contactar os seus amigos ou colegas de trabalho, enviando-lhes imagens e textos, assim como ter acesso à informação contida em muitos dos livros de muitas bibliotecas.

    Recupero estas recordações por no “Facebook” instalado no meu telemóvel me ter deparado com um artigo que relata a descoberta no interior de uma gruta em Espanha de ossadas de Neandertais. O texto diz-nos que o estudo efectuado revela interrupções no normal crescimento dos ossos e sugere que esses hominídeos ancestrais hibernavam. O seu metabolismo estaria naturalmente preparado para isso.

    Faziam-no como estratégia de sobrevivência ao frio e à escassez de alimentos durante a época gelada, vivendo das suas reservas corporais de gordura como os ursos ou outros animais fazem ou, ainda, talvez num estado de torpor que lhes permitia poupar energia tão necessária. Não faço a mínima ideia da veracidade daquilo que é afirmado, até porque toquei desajeitadamente no écran táctil do telefone e perdi o que estava a ler, sem ter tempo para saber quem era o autor, nem sequer o responsável pela publicação.

    Caso haja algum fundo de verdade naquilo que é aí dito, assim como tenha havido de facto cruzamento entre essa espécie hominídea e os “homo-sapiens” também com partilha dessa característica genética, talvez tenhamos adquirido natural capacidade para viajar de estrela em estrela e de galáxia em galáxia, a bordo de naves espaciais, em hibernação, até ao destino final.Talvez, quem sabe, para a espécie humana, poderá não ser só uma desesperada e heróica expedição de exploração em busca de uma alternativa de vida viável num planeta de uma estrela longínqua mas, milhares de gerações depois de hipotética chegada ao nosso, dotados dessa capacidade facilitadora para cumprir longos e duros caminhos, uma viagem de regresso às origens!

    Henrique BonançaVRSA – 27 de Dezembro de 2020

    PS – Bom Ano Novo para todos sem qualquer excepção, com muita saúde!