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  • Três milhões para os accionista da ALGAR

    Três milhões para os accionista da ALGAR

    Contentores a abuçar denunciam autarcas que votaram contra.

    O setor da gestão de resíduos no Algarve transformou-se num campo de batalha político e financeiro. No centro da contenda está a ALGAR, empresa responsável pelo tratamento e valorização de resíduos sólidos na região, que acaba de aprovar a distribuição de 3 milhões de euros em dividendos aos seus acionistas.

    A decisão, tomada pela estrutura controlada pelo grupo privado EGF (Empresa Geral do Fomento), contou com o voto contra unânime dos 16 municípios algarvios, que detêm 44% do capital.

    O Paradoxo Financeiro

    Enquanto a administração da ALGAR celebra resultados que permitem esta distribuição de lucros, os autarcas da região descrevem um cenário de “incipiência” e degradação do serviço público.

    O principal argumento dos municípios é ético e operacional: como pode uma empresa distribuir lucros “extraordinários” quando as ilhas de ecopontos transbordam e a recolha seletiva falha sistematicamente?

    A ALGAR faz um trabalho péssimo na recolha de resíduos. Somos nós, os municípios, que respondemos diariamente perante as populações e que, muitas vezes, temos de usar os nossos próprios recursos para fazer o trabalho que lhes competia.”

    Telmo Pinto, Presidente da Câmara Municipal de Loulé.

    Os Dados da Discórdia

    A investigação revela um fosso entre a contabilidade da empresa e a realidade das ruas. Cidades como Loulé pagam anualmente cerca de 6 milhões de euros à ALGAR pelo serviço.

    Os 3 milhões de euros agora distribuídos são vistos pelos autarcas como um valor que deveria ser obrigatoriamente reinvestido na modernização da frota e na frequência da recolha.

    Municípios como Albufeira e Loulé têm vindo a denunciar publicamente a falta de capacidade da empresa em cumprir o Plano Estratégico de Resíduos Urbanos (PERSU).

    A Estrutura de Poder

    A ALGAR é controlada pela EGF (56%), que por sua vez foi privatizada em 2014 e integrada no grupo Mota-Engil. Esta estrutura de gestão privada de um serviço essencial tem sido alvo de críticas recorrentes, pois os objetivos de rentabilidade dos acionistas privados parecem colidir com a necessidade de investimento público numa região que sofre com a sazonalidade extrema do turismo.

    Conclusão do Apuramento

    A distribuição de lucros no Algarve não é apenas uma questão de números, mas de modelo de gestão.

    Para os reguladores e autarcas, o facto de a empresa apresentar excedentes financeiros enquanto o serviço é considerado “deficitário” sugere que as tarifas cobradas aos cidadãos podem estar desajustadas ou que as metas de qualidade do contrato de concessão não estão a ser exigidas com o rigor necessário.

    A tensão atinge agora o nível máximo, com os municípios a exigirem uma revisão urgente do modelo de governação da ALGAR, sob pena de a região enfrentar uma crise ambiental e de imagem em pleno arranque da época turística de 2026.