Poesia ocupou a Sala das Sessões do Município de Alcoutim
A Sala das Sessões da Câmara Municipal de Alcoutim encheu-se na tarde de 18 de Abril para a apresentação do livro de poesia «Meio Arado», uma colaboração entre os autores José Dias Rodrigues e Fernando do Marmeleiro.
A obra, descrita como um testemunho das raízes e vivências da região, foi acolhida com entusiasmo pela autarquia e pela comunidade local.
O Presidente da Câmara Municipal, Paulo Paulino, abriu a sessão, destacando a importância de registar e preservar a memória coletiva do concelho.
Reconhecendo a dedicação dos autores à temática do Guadiana, das tradições e das memórias da região, enfatizou o apoio do município a projetos que contribuam para a valorização do território.
“Sempre que escrevem, surge o Guadiana, a nossa região, as nossas tradições, memórias que têm sempre a ver com o nosso território“, afirmou o autarca, sublinhando o compromisso de Alcoutim em acolher iniciativas que “registrem, conservem e façam com que estes registos permaneçam“.
A apresentação da obra esteve a cargo de António Matias, que ofereceu uma análise detalhada e perspicaz dos poemas de cada autor. Matias enquadrou a obra no conceito de cultura popular, citando o etnólogo e pedagogo Viegas Guerreiro, para quem “a cultura é a cultura de todos“.
Realçou a importância de valorizar os saberes e conhecimentos adquiridos nos “bancos da vida“, defendendo um diálogo entre a cultura popular e a erudita.
António Matias que é também presidente da Assembleia Municipal, descreveu o livro como “uma lavoura com parelha em manhã-nado“, metaforizando a colaboração entre os autores com a imagem do trabalho conjunto no campo.
Apontou diferenças nas abordagens de cada um, mas sublinhou a obediência “às arriatas e à sensibilidade ao esquilhão“, resultando numa lavoura que, apesar das nuances, encontra um propósito comum.
Analisando os poemas de José Dias Rodrigues, Matias destacou a centralidade de Alcoutim, das paisagens, da natureza e das pessoas, com o Guadiana a assumir um papel preponderante. Evidenciou temas como a saudade, o amor, a velhice, a tristeza, a esperança e a liberdade, sublinhando a homenagem aos poetas Luzano Camões, Flor Bela, Tadão Pessoa, Sofia, Joaquim Pessoa e António Leixo.
Particularmente emotiva foi a referência ao poeta Carlos Escobar, falecido em 2024, com a leitura de um poema a ele dedicado.
No que concerne à “lavoura” de Fernando do Marmeleiro, Matias salientou a ligação umbilical a Alcoutim, mesmo nas voltas que o autor deu pelo mundo.
Descreveu a obra como um retrato dos “chãos, cheiros e sabores” do mundo, com destaque para o Guadiana, o hogar, a esboa, a remota, a garboa e o tacar.
Evidenciou temas como o amor, a saudade, a natureza, a revolução de Abril e o regresso à terra natal. Emocionado, Matias partilhou a sua experiência pessoal no Portel do Cargo, durante o 25 de Abril, ao analisar um poema de Marmeleiro.
Após a apresentação, os autores tomaram a palavra. José Dias Rodrigues expressou o seu agradecimento à Câmara Municipal, à Vereadora da Cultura e à Chefe de Divisão, Manuela Teixeira, pelo apoio fundamental na edição do livro. Reconhecendo a ausência de “grande interesse literário“, enfatizou o valor da obra como “testemunho” de dois amigos de Alcoutim sobre a terra e as suas vivências.
Fernando do Marmeleiro agradeceu também ao município e a todos os presentes, partilhando a génese da colaboração com José Dias Rodrigues.
Sublinhou a importância de ler e compreender a poesia, convidando os presentes a “perceber” os poemas em vez de simplesmente os ler. Tal como Matias, homenageou Carlos Brito, lendo o poema “Só por livre pensamento“, dedicado ao poeta alcoutenejo.
A apresentação de «Meio Arado» foi um momento de celebração da cultura local, da amizade e da poesia. A obra, que já se encontra disponível, promete tocar os corações dos alcoutenejos e de todos aqueles que se identificam com as memórias, as tradições e os afetos da região.





















