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Etiqueta: Iluminismo

  • 250 Anos – Vila Real de Santo António: A «Cidade Perfeita» vista por Eduardo Horta Correia

    250 Anos – Vila Real de Santo António: A «Cidade Perfeita» vista por Eduardo Horta Correia

    Por trás da sua pacata frente ribeirinha e ruas simétricas, esta joia do Algarve esconde uma história de génio matemático, espionagem fronteiriça e peças “pré-fabricadas” no século XVIII. Uma viagem à história do urbanismo português, guiada pelo investigador José Eduardo Horta Correia.

    Quando passeamos hoje pelas ruas impecavelmente ortogonais de Vila Real de Santo António, podemos não nos aperceber de que pisamos o culminar de séculos de planeamento urbano.

    A cidade não cresceu ao acaso num descampado; ela é o resultado de uma fascinante fórmula matemática, militar e política, desenhada a régua e esquadro.

    É esta a premissa de um aprofundado estudo histórico assinado pelo investigador José Eduardo Horta Correia e editado pela Coimbra University Press.

    Um Tabuleiro de Xadrez Geopolítico

    A fundação desta vila algarvia esteve longe de ser uma mera resposta a necessidades habitacionais; tratou-se, sim, de uma verdadeira “Razão de Estado”.

    Na década de 1770, a Coroa portuguesa estava focada em aumentar a “substância do Reino” através da exploração estratégica dos recursos piscatórios do Algarve, numa altura em que as tensões diplomáticas e fronteiriças com Espanha se intensificavam.

    A solução encontrada pela coroa e pela administração do Marquês de Pombal foi utilizar a própria arquitetura como uma demonstração de poder na fronteira oriental do Império.

    O objetivo era arrojado: criar “assombro e confusão nos castelhanos”. Para que a surpresa fosse total, a construção avançou sob uma pesada política de sigilo, apostando na tática do facto consumado.

    A Matemática da Modernidade

    A genialidade que ergueu Vila Real de Santo António não nasceu do dia para a noite. Segundo o autor, ela é o ponto de chegada de um conhecimento acumulado desde a época dos Descobrimentos — visível, por exemplo, logo na geometria inovadora das casas da Vila do Infante, em Sagres.

    Ao longo dos séculos, os engenheiros militares portugueses aliaram a experiência no terreno à sólida formação matemática. Essa “escola” viria a atingir o seu grau de mestria máximo após o dramático Terramoto de 1755.

    A Casa do Risco das Obras Públicas, a mesma equipa de elite que instituiu o estilo e a reconstrução da Baixa de Lisboa, viria então a ser encarregue de aplicar todo o seu “saber fazer” nas margens do Guadiana, sob a liderança do arquiteto Reinaldo Manuel dos Santos.

    A Primeira “Cidade Lego” de Portugal

    Como é que se constrói uma “cidade modelo” capaz de intimidar vizinhos num espaço de tempo tão curto? A resposta iluminista passou pelo total pragmatismo e estandardização. A edificação funcionou de uma forma espantosamente moderna:

    • Sistema de Pré-Fabrico: Longe de ser esculpida do zero no local, a vila foi parcialmente montada. As pedras de cantaria eram talhadas à medida e enviadas desde a Corte de Lisboa, encontrando no Algarve as alvenarias já prontas para um encaixe perfeito.
    • Simetria de Fachada: Tudo foi concebido sob uma rígida parametrização geométrica. Desde a Praça Real, demarcada por quatro torreões e um obelisco dedicado ao Rei Fundador, à impressionante fachada da Baixa-Mar virada para Espanha (com a Alfândega ao centro), a métrica das janelas e portas era de cumprimento obrigatório.
    • Planeamento Intocável: Ao contrário das vilas coloniais que cresciam de forma elástica, Vila Real foi delineada como uma obra terminada. Os quintais das casas tinham muros com espessura de fachada e molduras de pedra já desenhadas (embora entaipadas). O objetivo era simples: se um dia a cidade precisasse de expandir e os quintais dessem lugar a novas casas, bastava abrir as portas falsas e a harmonia arquitetónica nunca seria quebrada.

    O Veredicto: Uma Única Grande Casa

    Para que a vila brilhasse como o ícone de poder e perfeição pretendido pelo Absolutismo Esclarecido, cada bloco foi uniformizado ao milímetro. A rua transformou-se no elemento que dita as regras e o quarteirão num mero subordinado dessa visão de conjunto.

    E é por ser um testemunho tão fechado e perfeito da utopia iluminista que as lógicas modernas de salvaguarda patrimonial enfrentam aqui um desafio ímpar. Como conclui, de forma contundente, José Eduardo Horta Correia, não é possível salvar partes dispersas desta localidade.

    Na verdade, Vila Real de Santo António não tem apenas algumas casas pombalinas para preservar; a cidade inteira “é uma única e grande casa e é enquanto tal que ou se salva ou se condena”.

    Créditos: Esta reportagem tem como base exclusiva o ensaio académico “O lugar de Vila Real de Santo António na história do urbanismo português”, da autoria de José Eduardo Horta Correia, publicado através da Coimbra University Press (UC Impactum). Foto: Joaquim Bartolomeu.

  • Ganhar a cidadania para o património pombalino

    Ganhar a cidadania para o património pombalino

    Enumero, para que não se percam no esquecimento do tempo, alguns dos nomes principais daqueles que, sempre bem acolhidos, mas por vezes mal compreendidos, deram parte do melhor do seu esforço para que, no dias de hoje, ainda possamos respirar alguma da realidade do que foi a vila fundada pelo Marquês de Pombal, dentro do espírito do Século das Luzes.

    Começo pelo arquitecto Joaquim Cabeça Padrão, o primeiro que iniciou vários estudos sobre o património no território do Algarve, com maior incidência no concelho de Albufeira. Ele fez as primeiras fotografias e o levantamento daquilo que ainda existia de pé, no início dos anos setenta. Já faleceu, mas ainda tive oportunidade de trocar com ele alguma palavras e impressões que ajudaram a que também ficasse cativo pela causa do património. 

    No início dos anos 80, um grupo de intelectuais interessados pelo património, onde se encontravam o dr. Fernando Reis,  o eng.  Eduardo Horta Correia, o arq. João Horta e o historiador Hugo Cavaco, reuniu-se em torno da revista ADIPACNA, tendo realizado um seminário, que contribuiu para o lançamento da ideia da necessidade de classificação do núcleo pombalino. Esta ideia foi acolhida pela câmara municipal, então presidida por Alfredo Graça e onde o vereador do pelouro da cultura e do urbanismo era António José Martins que viria a ser mais tarde também presidente da câmara municipal. 

    António Murta e Luís Gomes também tomaram  acções de relevo com o objectivo de levar à lei a classificação do núcleo histórico pombalino. O arq. Rui Figueiras, um jovem precocemente ceifado pela morte, também viria a ter um papel determinante neste processo, em especial na minúcia da análise e na recuperação do Torreão Sul.

    Pode afirmar-se que, mais pressão, menos pressão, mais cedência menos cedência, todos os que em Vila Real de Santo António se interessavam pelas questões do património vieram a ter a sua oportunidade de participar na defesa do património pombalino e nalgumas ações para a sua recuperação, embora, as verbas fossem sempre curtas. 

    Deve também figurar nos registos que o projecto de recuperação do edifício da câmara municipal e outros da zona histórica, elaborado pelo arquitecto João Horta, ainda sob a responsabilidade da Câmara municipal socialista e entregue para ser apoiado pelos fundos do Interreg II, já pela câmara CDU presidida por António José, nunca chegou a ser posto em prática porque as verbas daquele programa “sumiram” nas opções de responsáveis regionais para outros projetos muito longe da fronteira, cujas assimetrias se procurava corrigir.

    E chegamos hoje, depois de vários estudos internacionais, diversos seminários e congressos, a relembrar novamente a necessidade manter vivac a valorização do património do iluminismo, onde o núcleo histórico da nossa cidade se enquadra. Num tempo em que deve estar na ordem do dia a construção de uma sociedade socialista, é validamente progressista lembrar que, no advento do triunfo do capitalismo sobre a sociedade feudal, também existiu progresso e avançado para a Humanidade, embora este sistema esteja ultrapassado no seu desígnio.

    Aprendi, pela participação nestes eventos, a tirar uma constatação que gostaria de exprimir, no sentido de se tentar compreender alguma distanciação por parte das populações locais das ações em defesa do património, identificadas como exercício de elites ou, pior, como sorvedouros de dinheiro público ou empecilhos para a construção de edifícios modernos.

    É que, são os especialistas que o dizem, a beleza e o valor do património de Vila Real de Santo António, não reside nos seus edifícios de arquitetura pobre, destinados na sua origem a residências e a apoios à fabricação e conservação do pescado. Reside sim, na monumentalidade da sua retícula, do retângulo perfeito, na relação do obelisco e da praça com os eixos dos poderes temporal e espiritual, tendo por centro o rei absoluto. E, também, no facto de ter sido em Vila Real de Santo António que se terá ido mais longe, a nível mundial, na implantação da ideia do urbanismo iluminista.

    E é isto que tem de ser explicado às pessoas, para que a defesa passe para a cidadania e para não ser apenas objecto de louváveis e bem vindos estudos académicos, mas fazer parte da memória de toda a gente.

    José Estevão Cruz