Por trás da sua pacata frente ribeirinha e ruas simétricas, esta joia do Algarve esconde uma história de génio matemático, espionagem fronteiriça e peças “pré-fabricadas” no século XVIII. Uma viagem à história do urbanismo português, guiada pelo investigador José Eduardo Horta Correia.
Quando passeamos hoje pelas ruas impecavelmente ortogonais de Vila Real de Santo António, podemos não nos aperceber de que pisamos o culminar de séculos de planeamento urbano.
A cidade não cresceu ao acaso num descampado; ela é o resultado de uma fascinante fórmula matemática, militar e política, desenhada a régua e esquadro.
É esta a premissa de um aprofundado estudo histórico assinado pelo investigador José Eduardo Horta Correia e editado pela Coimbra University Press.
Um Tabuleiro de Xadrez Geopolítico
A fundação desta vila algarvia esteve longe de ser uma mera resposta a necessidades habitacionais; tratou-se, sim, de uma verdadeira “Razão de Estado”.
Na década de 1770, a Coroa portuguesa estava focada em aumentar a “substância do Reino” através da exploração estratégica dos recursos piscatórios do Algarve, numa altura em que as tensões diplomáticas e fronteiriças com Espanha se intensificavam.
A solução encontrada pela coroa e pela administração do Marquês de Pombal foi utilizar a própria arquitetura como uma demonstração de poder na fronteira oriental do Império.
O objetivo era arrojado: criar “assombro e confusão nos castelhanos”. Para que a surpresa fosse total, a construção avançou sob uma pesada política de sigilo, apostando na tática do facto consumado.
A Matemática da Modernidade
A genialidade que ergueu Vila Real de Santo António não nasceu do dia para a noite. Segundo o autor, ela é o ponto de chegada de um conhecimento acumulado desde a época dos Descobrimentos — visível, por exemplo, logo na geometria inovadora das casas da Vila do Infante, em Sagres.
Ao longo dos séculos, os engenheiros militares portugueses aliaram a experiência no terreno à sólida formação matemática. Essa “escola” viria a atingir o seu grau de mestria máximo após o dramático Terramoto de 1755.
A Casa do Risco das Obras Públicas, a mesma equipa de elite que instituiu o estilo e a reconstrução da Baixa de Lisboa, viria então a ser encarregue de aplicar todo o seu “saber fazer” nas margens do Guadiana, sob a liderança do arquiteto Reinaldo Manuel dos Santos.
A Primeira “Cidade Lego” de Portugal
Como é que se constrói uma “cidade modelo” capaz de intimidar vizinhos num espaço de tempo tão curto? A resposta iluminista passou pelo total pragmatismo e estandardização. A edificação funcionou de uma forma espantosamente moderna:
- Sistema de Pré-Fabrico: Longe de ser esculpida do zero no local, a vila foi parcialmente montada. As pedras de cantaria eram talhadas à medida e enviadas desde a Corte de Lisboa, encontrando no Algarve as alvenarias já prontas para um encaixe perfeito.
- Simetria de Fachada: Tudo foi concebido sob uma rígida parametrização geométrica. Desde a Praça Real, demarcada por quatro torreões e um obelisco dedicado ao Rei Fundador, à impressionante fachada da Baixa-Mar virada para Espanha (com a Alfândega ao centro), a métrica das janelas e portas era de cumprimento obrigatório.
- Planeamento Intocável: Ao contrário das vilas coloniais que cresciam de forma elástica, Vila Real foi delineada como uma obra terminada. Os quintais das casas tinham muros com espessura de fachada e molduras de pedra já desenhadas (embora entaipadas). O objetivo era simples: se um dia a cidade precisasse de expandir e os quintais dessem lugar a novas casas, bastava abrir as portas falsas e a harmonia arquitetónica nunca seria quebrada.
O Veredicto: Uma Única Grande Casa
Para que a vila brilhasse como o ícone de poder e perfeição pretendido pelo Absolutismo Esclarecido, cada bloco foi uniformizado ao milímetro. A rua transformou-se no elemento que dita as regras e o quarteirão num mero subordinado dessa visão de conjunto.
E é por ser um testemunho tão fechado e perfeito da utopia iluminista que as lógicas modernas de salvaguarda patrimonial enfrentam aqui um desafio ímpar. Como conclui, de forma contundente, José Eduardo Horta Correia, não é possível salvar partes dispersas desta localidade.
Na verdade, Vila Real de Santo António não tem apenas algumas casas pombalinas para preservar; a cidade inteira “é uma única e grande casa e é enquanto tal que ou se salva ou se condena”.
Créditos: Esta reportagem tem como base exclusiva o ensaio académico “O lugar de Vila Real de Santo António na história do urbanismo português”, da autoria de José Eduardo Horta Correia, publicado através da Coimbra University Press (UC Impactum). Foto: Joaquim Bartolomeu.