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    A experiência de um português que viveu com mil pinguins na Antártida

    por Bruno Manteigas, da agência Lusa

    Londres, 26 abr 2026 (Lusa) – Durante os cinco meses que passou em Port Lockroy, na Antártida, o português Tiago Figueiredo aprendeu a conviver com mais de mil pinguins, numa ilha com “autoestradas” e “creches” dedicadas a esta ave não voadora.

    O lisboeta, que completou 48 anos no extremo do hemisfério sul, integrou uma equipa da UK Antarctic Heritage Trust (UKAHT), organização filantrópica britânica responsável por vários locais na Antártida, como a ilha de Goudier.

    A missão da UKAHT, que se realiza anualmente, inclui várias tarefas, desde a operação de um posto de correios – pelo qual Tiago Figueiredo foi responsável – e de um museu, até ao recenseamento da população de pinguins.

    Quando chegou, em novembro passado, no início do verão antártico, os machos e as fêmeas adultos, monógamos e que acasalam para toda a vida, estavam a construir os seus ninhos com “pequenas rochas que encontram e que roubam uns aos outros”.

    “Nessa fase há bastante neve na ilha e os pinguins deslocam-se no que chamamos de ‘autoestradas dos pinguins’, literalmente caminhos que vão criando no gelo”, contou Tiago Figueiredo à agência Lusa, já no Reino Unido, onde vive há 14 anos.

    Os trilhos são visíveis “porque são mais castanhos, já que eles têm um metabolismo muito rápido e vão deixando lixo (orgânico) por todo o lado”, descreveu.

    “Nessa altura, é relativamente fácil para nós, enquanto residentes temporários da ilha, sabermos exatamente onde eles vão estar. Damos sempre passagem e conseguimos manter-nos afastados dos ninhos”, acrescentou.

    Quando um encontro acontece, os animais aproximam-se dos humanos e esperam que estes se movam para poderem continuar o seu caminho.

    “Os pinguins não têm medo de nós. Ficam à espera, como se fôssemos um semáforo vermelho. O convívio é simples, porque conseguimos evitá-los e manter uma certa distância, que aliás é recomendável”, explicou.

    Com o degelo, a situação complica-se, porque “deixam de ter as autoestradas e passam a andar por todo o lado”.

    Durante a incubação dos ovos e após o nascimento das crias, em dezembro, a movimentação é limitada, pois um adulto fica no ninho, enquanto o outro membro do casal vai à água procurar sustento para a família. 

    É mais tarde, a partir do fim de janeiro, quando já estão suficientemente crescidas para saírem sozinhas que as centenas de crias passam a circular por toda a ilha, que tem apenas uma área equivalente a um campo de futebol.

    “Tal como miúdos, são completamente imprevisíveis e andam por todo o lado. Não demonstram qualquer receio e não se afastam – pelo contrário, chegam a bicar nas nossas botas”, contou o português.

    Este caos levou ao encerramento da ilha a turistas e visitantes em alguns dias, “porque simplesmente era impossível e impraticável”, devido às numerosas “creches”, nome dado aos grupos de pinguins jovens.

    “Eles correm atrás dos pais a pedir comida, cansam-se, e os pais, a certa altura, fogem deles porque já não têm paciência nem comida para lhes dar. As crias ficam onde se cansam e acabam por adormecer, seja numa pedra, num pedaço de madeira ou até na rampa de acesso à casa”, descreveu.

    O estudo da população de pinguins teve resultados positivos: dos 550 casais contabilizados, 445 puseram ovos, mais do que nas épocas anteriores, e a taxa de sobrevivência também aumentou.
    “Tivemos mais ovos de mais casais e mais crias que sobreviveram às primeiras semanas de vida, que são bastante difíceis para eles”, assinalou.

    A espécie nativa é a gentoo, embora, durante esta estação, tenham sido observados diariamente pinguins adelie e chinstrap, anteriormente vistos apenas de forma esporádica.

    Ao longo dos cinco meses em Port Lockroy, Tiago Figueiredo tirou milhares de fotografias às 15 espécies de animais que visitam regularmente a ilha, como focas-leopardo ou os oportunistas ‘sheathbills’, pássaros que “dão um encontrão” às crias de pinguins para lhes roubar comida.

    Também escreveu muitas notas, que continua a partilhar no blogue que criou [https://www.ilhanofimdomundo.com], e pondera escrever um livro com base nos diários que elaborou enquanto carimbava milhares de cartões e postais, incluindo para Portugal.

    Entre as histórias que terá para contar está a surpresa de uma compatriota que, após ler a entrevista à agência Lusa sobre o português que ia “trabalhar no posto de correios mais remoto do mundo”, lhe ofereceu dois pacotes de café nacional durante uma visita turística à ilha.

    “A certa altura, acabou o café que tinha levado e foi aquele que me salvou”, disse Figueiredo.

    No regresso à civilização, em meados de março, estranhou o cheiro a poluição na escala em São Paulo, o barulho dos carros, as filas no supermercado e a necessidade de levar as chaves ao sair de casa.

    Após algumas lavagens, Tiago Figueiredo conseguiu enfim livrar-se do odor dos pinguins na roupa, que inicialmente repudiou, mas ao qual acabou por se habituar.

    “Eu acho que vou ter saudades desse cheiro, para ser sincero. É a memória que fica”, confidenciou.

    BM // VM
    Lusa/Fim