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Etiqueta: Eólicas

  • O Braço de Ferro entre a Energia “Verde” e a Integridade Ecológica

    O Braço de Ferro entre a Energia “Verde” e a Integridade Ecológica

    Com a consulta pública a decorrer até 16 de abril, o futuro dos parques eólicos de Viçoso, Pereiro, São Marcos e Albercas está sob escrutínio.

    Movimentos locais e organizações ambientalistas alertam que o preço da descarbonização não pode ser a destruição de ecossistemas críticos.

    O Nordeste Algarvio volta a ser o epicentro de uma disputa ambiental. Em causa está a modificação dos projetos de hibridização de quatro centrais fotovoltaicas (CF), que prevêem a instalação de torres eólicas em zonas de elevado valor ecológico. Embora a “hibridização” (combinar sol e vento num mesmo local) seja tecnicamente eficiente, o impacto geográfico está a gerar uma onda de contestação.

    O Que Pode Acontecer ao Projeto?
    O desfecho desta consulta pública no portal Participa.pt poderá ditar três caminhos distintos para as infraestruturas planeadas:

    Luz Verde com Condicionantes Estritas: A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) pode emitir uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável, mas exigir a alteração da localização de aerogeradores específicos para proteger rotas de aves ou reduzir o ruído junto a populações.

    Chumbo por Efeitos Cumulativos: Se ficar provado que a soma destes parques com outras infraestruturas energéticas na região ultrapassa a “capacidade de carga” do território (fragmentação excessiva de habitats), o projeto pode ser travado ou obrigado a uma reformulação profunda.

    Caso o projeto avance sem contemplar as preocupações locais, é provável que o caso transite das plataformas de consulta para os tribunais, tal como tem acontecido noutros pontos do país (ex: Serra de Arga).

    As Estratégias das Organizações Opositoras
    Para obviar (evitar ou impedir) a concretização do projeto nos moldes atuais, as associações e cidadãos estão a mover-se em várias frentes:

    A demonstração de incompatibilidade biológica, uma vez que as organizações estão a compilar dados sobre a presença de espécies protegidas (como aves de rapina e morcegos) que podem não ter sido devidamente acauteladas nos estudos de impacto ambiental da empresa promotora.

    A prova de risco de mortalidade direta é um dos argumentos mais fortes para o chumbo. Exixgtem atgumentos como o da “Saúde Pública” onde, para além da natureza, o foco está nas pessoas.

    A oposição destaca o impacto do ruído de baixa frequência e o efeito de shadow flicker (sombra intermitente das pás), que afetam a qualidade de vida e a saúde mental dos residentes nas proximidades.

    Quanto à exigência de uma Transição Energética Justa
    O argumento central não é contra a energia renovável, mas sim contra o local da sua instalação.

    As organizações defendem que a energia “verde” deixa de o ser quando destrói serviços de ecossistema e desvaloriza o território rural, defendendo o ordenamento do território em vez da proliferação desregulada de torres.

    «Nem toda a energia ‘verde’ é sustentável.» — Esta frase resume o sentimento da contestação: a urgência climática não deve servir de “cheque em branco” para sacrificar a biodiversidade remanescente.

    Até ao dia 16 de abril, qualquer cidadão pode consultar os documentos técnicos e submeter o seu parecer no portal

  • Eólicas gigantes no Nordeste Algarvio

    Eólicas gigantes no Nordeste Algarvio

    Entre a Promessa Energética e o Grito de Alerta Ambiental da Serra


    TAVIRA E ALCOUTIM — O interior do Algarve encontra-se no centro de uma nova vaga de investimentos em energias renováveis que está a dividir opiniões.

    A instalação de parques eólicos com aerogeradores de nova geração — caracterizados por uma altura sem precedentes e elevada potência — nos concelhos de Tavira e Alcoutim está a colocar em confronto a urgência da transição energética e a preservação do património natural e social da região.


    O Projeto: Gigantes de Aço no Horizonte

    O principal foco de tensão é o projeto de hibridização da Central Fotovoltaica de Alcoutim (Solara4), que prevê a instalação de 25 aerogeradores com uma potência unitária de 6,6 MW. Somando a outros projetos em avaliação, como os parques de Cachopo (Tavira) e Pereiro, estima-se que mais de uma centena de turbinas possam vir a ocupar uma área de 500 km^2 no nordeste algarvio.

    Estes novos geradores são significativamente mais altos do que os modelos tradicionais, visando maximizar a captação de vento em altitudes superiores, o que altera de forma irreversível a linha do horizonte das serras algarvias.
    Autoridades: O Dilema entre Desenvolvimento e Ordenamento
    As autoridades locais e regionais encontram-se num equilíbrio delicado:

    Impacto Positivo: É reconhecido o potencial de criação de receitas diretas para os municípios (através de taxas e rendas) e o contributo para as metas nacionais de descarbonização. O reforço da rede elétrica na subestação de Tavira é visto como um ativo estratégico.

    Preocupações: Existe o receio de que o interior se torne um “quintal energético” do litoral, sem benefícios diretos na fixação de população ou na descida da fatura de energia para os residentes locais. A pressão sobre o ordenamento do território é uma preocupação constante nas câmaras municipais.
    Sociedade Civil e Ecologistas: “Impactos Irreversíveis”
    A reação da sociedade civil tem sido de forte oposição, liderada por movimentos como a Plataforma pela Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve (PPSBA) e a SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves).
    Em janeiro de 2026, a SPEA emitiu um parecer contundente pedindo o chumbo definitivo do projeto Solara4. Os argumentos focam-se em dois eixos:

    • Biodiversidade: O projeto situa-se num corredor migratório crítico e ameaça espécies protegidas, como a Águia-de-bonelli, o abutre e a cegonha, devido ao risco de colisão.
    • Qualidade de Vida: Aldeias como Malfrades e Monte das Preguiças poderão ficar a menos de 800 metros das turbinas, expondo os moradores a ruído constante e ao impacto visual de estruturas de grande escala.

    “A transição energética é necessária, mas não pode ocorrer à custa da natureza ou da qualidade de vida das populações locais”, afirma a SPEA em comunicado recente.

    Quadro Comparativo de Impactos

    DimensãoAspetos PositivosInconveniências / Riscos
    EconómicaReceitas municipais e investimento direto.Desvalorização de propriedades e impacto no turismo de natureza.
    AmbientalRedução de emissões de CO_2.Risco para aves migratórias e destruição de habitats sensíveis.
    SocialReforço das infraestruturas elétricas.Poluição sonora e alteração drástica da paisagem serrana.

    Antevisão Eólicas

    O processo de consulta pública para a reformulação do projeto de Alcoutim encerra no início de fevereiro, prometendo ser um marco na definição de quão longe o Algarve está disposto a ir na produção de energia “limpa”.