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  • Canto a Vozes: “Grito de Liberdade” Feminino do Campo Ambiciona Palco Mundial da UNESCO

    A Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres anunciou que irá submeter uma candidatura à UNESCO, visando a classificação do canto a vozes, prática musical profundamente enraizada no trabalho rural feminino, como Património Cultural da Humanidade.

    A iniciativa procura preservar e valorizar esta expressão artística, outrora “ocultada” mas ainda vibrante, que a associação define como um “grito de liberdade” das mulheres do campo.

    A presidente da Associação, Margarida Antunes, revelou a intenção da candidatura, destacando a riqueza e singularidade deste património musical. “É um riquíssimo património que, apesar de ainda vivo, foi ocultado publicamente ao longo dos tempos, porque às mulheres estava reservado um lugar caseiro e o trabalho no campo,” explicou Antunes.

    A prática, transmitida de geração em geração, representa um “saber-fazer que está entre os mais ricos da Europa”.

    O anúncio foi feito em Vale de Cambra, no distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, local que acolherá, no próximo fim de semana, o 2.º Encontro Nacional de Canto a Vozes. O evento reunirá mais de 400 participantes e servirá de palco para a primeira reunião dos municípios que apoiam a candidatura.

    Mónica Seixas, vereadora da Cultura de Vale de Cambra, sublinhou a importância do canto a vozes como expressão do pensamento feminino num contexto histórico de limitações. “O canto a vozes é uma expressão do pensamento das mulheres num tempo em que, muitas vezes, não tinham espaço de afirmação“, afirmou Seixas, acrescentando que as melodias “tiveram um significado profundo na construção da identidade e memória coletiva”.

    Margarida Antunes complementa essa visão, relacionando a sonoridade do canto à paisagem e à dureza da vida rural. “O canto é moldado pela paisagem,” explica. “O trabalho do campo é duro, as mulheres cantavam do berço à cova e faziam-no para obstar às agruras desse trabalho”.

    Já reconhecido como Património Imaterial Nacional desde dezembro de 2023, o canto a vozes engloba uma vasta gama de expressões, desde o embalo dos filhos à manifestação de alegrias e tristezas, crenças e amores.

    Contudo, para a presidente da associação, a sua essência reside na sua função como “grito de liberdade lançado na voz, de forma livre e sem muros”.

    A associação, criada em 2020, é fruto do trabalho de pesquisa e levantamento de grupos formais e informais realizado por uma equipa da Universidade de Aveiro, liderada pela professora Maria do Rosário Pestana. Este trabalho permitiu reunir mais de 300 cantadeiras e cantadores, que até então, na sua maioria, não se conheciam entre si.

    Desde a sua criação, a Associação de Canto a Vozes tem promovido a visibilidade da prática, atraindo “muitos jovens” e incentivando a organização regular de oficinas, intercâmbios, residências e encontros para atuação.

    Questionada sobre as perspetivas futuras, Margarida Antunes responde com determinação: “O que nos reserva o futuro, caso haja reconhecimento internacional? Continuar sempre.” Para Antunes, “o reconhecimento dá mais visibilidade, divulga, mas a transmissão de conhecimento e manter viva a essência de um património é uma alegria, uma forma de estar e um combate diário“.

    Para além de Vale de Cambra, São Pedro do Sul e Viana do Castelo, a candidatura a Património Mundial conta com o apoio de outros 22 municípios: Alfândega da Fé, Arcos de Valdevez, Arouca, Braga, Bragança, Coimbra, Esposende, Famalicão, Guimarães, Lisboa, Miranda do Douro, Oeiras, Oliveira de Frades, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Porto, Póvoa de Varzim, Santa Maria da Feira, Sever do Vouga, Serpa, Terras de Bouro e Vouzela.

    Lusa