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Etiqueta: CiiP Cacela

  • Os almocreves e as vias de comunicação no Algarve

    Os almocreves e as vias de comunicação no Algarve


    O CiiP de Vila Nova de Cacela continua a desenvolver a atividade de divulgação do património cultural, abordando, desta vez a utilização das vias de comunicação por parte dos almocreves no passado do Algarve

    Salientam que, na região, são referidos em fontes históricas pelo menos desde o séc. XVI e que o estado das vias de comunicação na região é fundamental para se compreender a relevância da profissão.

    Ainda no séc. XIX, citando Vilhena de Mesquita, 2005 lembram que:

    Faltavam no Algarve as vias de comunicação terrestre, amplas, acessíveis e seguras. O que existia era uma desgastada e ancestral via longitudinal, designada por ‘estrada real’ «que marginava, próxima e paralela, à linha costeira (em certos locais coincidente com a actual estrada 125), com poucas ramificações para o interior alentejano, com vários acidentes naturais (rios, desfiladeiros e penhascos) intransponíveis por falta de pontes e de outras obras para a facilitação do trânsito.”)

    E anotam que, segundo Romero Magalhães, 2018. no séc. XVI, não podemos sequer falar de verdadeiras estradas, de vias pavimentadas, mas sim de caminhos maus em terrenos acidentados, onde transitavam apenas cavalos e sobretudo muares, transportando mercadorias. Estradas carroçáveis não as havia. Os principais agentes deste tráfego, eram os almocreves que circulavam por veredas e passagens difíceis com as suas bestas muares carregadas, cruzando a serra, pelo menos mensalmente.

    Para além do desconforto provocado pelas estradas impraticáveis, dificuldade na transposição das linhas de água, relevo acidentado, exposição ao sol intenso ou ao frio e chuva, a almocrevaria não era também uma profissão isenta de perigos. O mais comum, para atravessar a serra algarvia e penetrar na peneplanície alentejana, eram os almocreves circularem em caravanas, protegendo-se em conjunto dos salteadores de estradas. Na serra, especialmente, escondiam-se malfeitores e bandoleiros que assaltavam os passantes. Muitos dos assaltos eram perpetrados por homens ao serviço de proprietários das terras por onde passavam.

    Leia os trabalhos de Ciip de Cacela

  • Passos Contados é percurso sobre a alfarroba

    Passos Contados é percurso sobre a alfarroba

    A temática é a «Alfarroba, Antigas Tradições e Perspectivas de futuro, a iniciativa do iniciativa do CIIP e a participação do agricultor João Sol.

    Em apoio da sua iniciativa, o CIIP faz notar que no Algarve, «a alfarroba continua com um peso importante na economia familiar e são muitas as famílias, com pequenas e médias parcelas de terreno com Pomar de Sequeiro, que no Verão destinam parte do seu tempo à apanha da alfarroba».

    «A colheita é feita no Verão, quando o calor mais aperta, entre final de Julho e Setembro», explica aquele Centro de Informação e Investigação, de iniciativa da câmara municipal de Vila Real de Santo António

    Tradicionalmente começa pelo ’varejo’, tarefa, que requer habilidade e alguma força, é trabalho dos homens, que usam canas de tamanho e flexibilidade diferentes. As mais compridas, por vezes com 5 metros, usam-se nas árvores maiores para abanar os ramos a partir do chão e as mais curtas para as árvores mais pequenas ou para quando os varejadores têm de subir para alcançar as vagens no topo da copa.

    Após a queda das alfarrobas as mulheres iniciavam a apanha para dentro de canastras de cana sendo depois despejadas para o carro de mulas. Agora usam-se baldes de plástico e o transporte é feito em trator ou carrinha. Completado todo o processo da apanha, a alfarroba é transportada para um armazém onde, permanece até ser vendida.

    Neste passeio, os participantes vão conhecer o tradicional pomar de sequeiro e apanhar alfarroba, enquanto conversamos sobre antigas tradições ligadas a este fruto, sua importância na economia Algarvia e perspectivas de futuro para aquele que tem sido chamado «o ouro algarvio».

  • A caça na Pré-História no Algarve Ocidental

    A caça na Pré-História no Algarve Ocidental


    Na sua habitual rubrica «Património Apanhado na Rede», o CiiP Cacela aborda a caça na Pré-História no território do Algarve, tentando identificar como se caçava e o que se caçava, que armas se utilizavam e o peso que a caça tinha na dieta alimentar das comunidades que habiravam a região, próxima do rio Guadiana.

    Concluem que «alguns artefactos identificados durante as escavações no túmulo megalítico de Santa Rita, monumento funerário pré-histórico com cerca de 4500 anos, ajudam-nos a responder a estas questões. Nas escavações realizadas em 2008, foi possível identificar no interior da câmara funerária cerca de 3 dezenas de pontas de seta e de lança, talhadas maioritariamente em sílex, de diversos tamanhos e tipologias». Estes artefactos fizeram parte das oferendas votivas – integradas num complexo ritual fúnebre – depositadas junto dos restos mortais dos indivíduos aí sepultados.

    Diz-nos o CiiP que «Podemos imaginar que, a quando da sua deposição, estivéssemos perante os instrumentos completos (arcos e flechas e lanças), não se tendo porém conservado as componentes de madeira, fibras vegetais, penas. Terão sido depositados certamente junto das ossadas de indivíduos do sexo masculino, pois é sabido que a caça e a defesa eram actividades masculinas.
    A partir da presença destes artefactos no túmulo podemos fazer diversas reflexões sobre estas comunidades que, no III milénio antes da nossa era, terão habitado num povoado ontem hoje se localiza a aldeia de Santa Rita
    ».

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  • Final de dia na safra das Salinas Salmarim

    Final de dia na safra das Salinas Salmarim


    O CIIP Cacela no seguimento do o seu ciclo de percursos pedestres «Passos Contados», com o passeio «Final de dia na safra do Sal» nas Salinas Salmarim e com os produtores de sal Jorge Raiado e Sandra Madeira assistiu à revelação das diversas utilizações associadas à produção artesanal do sal.

    Apreciaram a importância histórica na conservação dos alimentos, os saberes-fazeres associados à manutenção das salinas ao longo do ano e extração do sal, flor de sal, na época estival, e aos valores naturais associados, especialmente nas aves que aí se alimentam e nidificam, em pela Reserva do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

    Foi um passeio rico em experiências e caminhada pelos talhos, recolha da flor de sal e apanha do sal e, no final, degustação de tomate da época e lingueirão com sal e flor do sal.

    Jéssica Faustino, aluna do curso de fotografia da escola ETIC Algarve, é autora das fotos partilhadas, do registo fotográfico que fez no percurso.

  • CIIP Cacela retoma as oficinas mensais

    CIIP Cacela retoma as oficinas mensais

    Num primeiro momento os participantes criaram as suas próprias aguarelas naturais a partir de elementos da natureza como legumes, frutos, flores, algas e especiarias, para depois as aplicarem na pintura de flores que dão cor à Primavera.

    Desta forma bem entusiasmada, muito criativa e com muita cor, o CIIP , depois de todas as restrições associadas à pandemia, retoma âs oficinas mensais para o público em geral, na área das artes e dos saberes fazeres-tradicionais.

  • CiiP Cacela – Pastores de Santa Rita

    CiiP Cacela – Pastores de Santa Rita

    Mestre Francisco Alves

    Nasceu no Monte das Pereiras, na Junqueira em 1950 e viveu em Santa Rita até ao fim dos seus dias. O seu pai já era pastor.

    Desde pequeno ganhou gosto pelos animais andando com o seu pai na pastagem: fazia vacas e bois a partir das forcas das estevas e assim brincava e se entretinha. «Lembro-me do meu pai se juntar com mais pastores na ponte da Esteveira, que vai para Castro Marim, havia ali uma perna do rio de água salgada e davam banho aos bichos, todos os anos, por altura do São João da Degola, no final de Agosto. Era bom para a saúde dos animais.”

    Casou aos 19 anos, foi para a tropa tendo posteriormente sido chamado para Angola. Quando voltou, foi trabalhar para o caminho-de-ferro, mas passado algum tempo começou a trabalhar por sua conta, na apanha do marisco, a cortar lenha.

    No final da década de 70, início de 80, começou a ter o seu rebanho, em Santa Rita. Chegou a ter 220 cabras vendendo 200 litros de leite de cabra por dia, vendido em cântaros de zinco. Nos últimos anos contava com 25 ovelhas, umas borregas pequenas e perto de 60 cabras, ordenhando apenas para o gasto da casa. «O pastor tem sempre o cajado para jogar aos animais, a funda e o cão. Pastor sem cão é o mesmo que caçador sem espingarda».

    Andava com o seu rebanho por toda a região de Cacela, desde a ilha da ria até à mata da Conceição, passando por terras de proprietários que assim o consentiam. No entanto, recorda que a GNR andava sempre a fiscalizar os pastores e os rebanhos. “Os animais para parirem depende da força da lua, normalmente é na lua cheia ou lua nova.

    Quando nascem, os borregos e os cabritos ficam com as mães, recolhidos no curral, só mais tarde começam a andar com o rebanho. «Sei distingui-los todos. Damos-lhes nomes: é a cereja, é a patifa, … Até pelos chocalhos a gente os conhece».

    Até ao fim dos seus dias, Francisco Gonçalves dedicou-se ao seu rebanho de corpo e alma, como só um verdadeiro mestre sabe faze

    António Afonso

    Conhecido por António Miguel, nasceu em 1937 no sítio da Champana, na Corte António Martins. Filho mais novos de 3 irmãos homens, viveu sempre com os seus pais, mesmo depois de casar-se.

    Veio viver para Santa Rita, nos primeiros anos da década de 60, com a sua esposa, os seus pais e uma filha. Teve depois mais 4 filhos, no total de 3 raparigas e 2 rapazes.

    Dedicado desde sempre aos trabalhos agrícolas, começou a trabalhar cedo em propriedades de lavradores da região. Durante 12 ou 13 anos participou nas campanhas na ceifa no Alentejo, durante os meses de maio e junho, terminando os trabalhos por altura do S. João. «Eram tempos muito duros. A gente ia à ceifa, no Alentejo. Deitávamos molhados e levantávamos molhados. Começávamos a ceifar ao romper do dia e a noite, já nem se via, quando a gente largava. Para ceifar trinta e poucos dias trazíamos para casa 1000 escudos, 1000 e poucos. Era uma miséria. Apanhámos uma herdade que à sombra era o céu

    Mais tarde, emigrou por temporadas de 8/9 meses, para França, onde realizava trabalhos na área da construção civil. Teria continuado a emigrar, pois ganhava-se bem, mas a família reteve-o e não voltou a fazê-lo. Foi com esse dinheiro que comprou os primeiros animais, vacas tourinas, cujo o leite era vendido para cooperativas em Vila Real de Santo António, ajudando no sustento da casa. As vacas e posteriormente as cabras davam trabalho a toda a família: soltá-las, apanhar erva, ordenhar, recolher eram tarefas diárias que tinham de ser feitas nos intervalos dos trabalhos agrícolas. O pai e, depois, a sua esposa, eram o seu grande apoio nesta actividade agro-pastoril. Quando deixou de trabalhar para os outros, António Miguel continuou com as suas cabras, entretendo-se a cuidar delas e levando-as a pastar à volta da aldeia até praticamente ao fim dos seus dias.