A separata, foi editada pela Editora Guadiana, leva por título «Cartografia de Uma Vila Régia Artilhada Contra Ayamonte» na «Separata de cartografia de uma vila régia artilhada contra Ayamonte», ao abrigo das «Jornadas de Historia de la my Noble y Leal Cudad de Ayamonte Vol. XXV2022» do investigador e historiador vilarrealense.
A sessão contou com a participação de numeroso público interessado na evolução de Vila Real de Santo António, cujos tempos anteriores e motivos para ser erigida pelo Marquês de Pombal, no reinado de D. José I, ocorreram durante a Revolução Iluminista que percorria a Europa.
A investigação foi apresentada no âmbito do ciclo «Arquivo entre Histórias» e constitui mais um contributo para a construção do conhecimento sobre o que foi a vila régia fundada na foz do Guadiana, entre a sua edificação e momentos incontornáveis da nossa história contemporânea, como a Guerra das Laranjas ou as invasões francesas.
Estiveram também presentes o vereador da autarquia com o pelouro do Património Material e Imaterial, Fernando Horta, e da presidente da Assembleia Municipal de VRSA, Célia Paz.
José Estêvão Cruz, por procuração da diretora do Jornal do Algarve, leu um texto de saudação ao historiador Fernando Pessanha. Aquele jornal vem apoiando a publicação dos trabalhos do autor inserindo mensalmente na revista encartada no corpo do jornal, dedicada aos assuntos da cultura.
De facto, uma das grandes dúvidas da História do sotavento algarvio acaba de ser esclarecida: a localização das pedras nobres da Ermida de Santo António, edificada na vila de Santo António de Arenilha.
Tal como podemos acompanhar nos vários estudos que temos vindo a publicar em várias revistas culturais/científicas/académicas, a vila de Arenilha foi fundada na foz do Guadiana, em 1513. Foi constituída como um couto de homiziados, sendo que no seu porto – onde eram contrabandeados escravos e mercadorias trazidas das praças portuguesas do Norte de África – era frequentemente atacado pelo corso e pela pirataria, principalmente a magrebina.
A partir de 1542, a alcaidaria-mor de Arenilha foi atribuída a António Leite, capitão das praças portuguesas de Mazagão, Azamor e do forte do Seinal, como compensação pela perda da capitania de Mazagão, onde se concentraram as forças portuguesas no sul de Marrocos depois da evacuação de Safim e Azamor.
De facto, foi durante a evacuação de Alcácer Ceguer, em 1550, que o capitão António Leite transferiu para os edifícios religiosos de Santo António de Arenilha (Igreja da Trindade e Ermida de Santo António) as pedras nobres da capela existente no forte do Seinal, nomeadamente, as pias baptismais e de água benta, uma coluna com as armas de António Leite e até a pedra do altar-mor.
Estas informações, avançadas por Hugo Cavaco, em 2010, e por nós desenvolvidas desde 2014, levantaram, no entanto, uma dúvida: o destino dado às pedras nobres de Arenilha quando a população da vila se dispersou pelo concelho, durante o séc. XVII que assistiu à Guerra da Restauração (1640-1668).
A resposta a este enigma com quatro séculos foi agora desvendada pelo historiador de arte Marco Sousa Santos, que identificou, na Ermida de Santo António, em Castro Marim, um pedestal com o brasão de armas do capitão António Leite, alcaide-mor de Arenilha, assim como o tampo de uma mesa de altar onde figura a inscrição:
Esta descoberta destaca-se, desde logo, pela sua grande importância histórico-cultural, não só por se tratar de um património arqueológico dos Algarves de Aquém e de Além-mar, trazido para a foz do Guadiana no contexto da reformulação da estratégia norte-africana de D. João III, como também por se tratar dos únicos materiais (até agora conhecidos) que sobreviveram ao desaparecimento da sede de concelho de Santo António de Arenilha, reconstruída a partir de 1774 e cujo nome, em 1775, veio a ser alterado para Vila Real de Santo António, segundo deliberação do marquês de Pombal. Mais uma prova, agora física, de que a nossa terra é muito mais antiga do que, deliberadamente, nos quiseram convencer com o pretexto rebuscado da arquitectura pombalina. Contra factos não há argumentos.
É esta controversa revisão da narrativa vigente que o historiador vilarealense Fernando Pessanha reiterou, ontem à tarde, no Arquivo Histórico Municipal António Rosa Mendes, à luz da descoberta de novos documentos, por parte de uma geração de novos historiadores.
Fernando Pessanha tem vindo a publicar, em livros, separatas e artigos de jornal, um acervo de documentação para corroborar a sua tese, mesmo tendo em conta os trabalhos apresentados por Athaíde de Oliveira, Romero de Magalhães ou Hugo Cavaco, considerando que a Vila de Santo António de Arenilha é não apenas a origem como vive na atual Vila Real de Santo António, sendo esta a sua reconstrução.
Assim, depois de ter consultado e reunido vasta documentação, nos últimos anos, o historiador nega qualquer dictomia entre a Vila de Arenilha e a do Marquês, que considera como a mesma realidade geográfica, afixando o 8 de Fevereiro de 1513 como a data real da fundação.
O auditório estava repleto e foram notadas as presenças da vereadora da Cultura, Conceição Pires, da presidente da Assembleia Municipal, Célia Paz e do Capitão do Porto.
Na manhã, na Avenida das Comunidades, foi descerrada uma placa em honra do Capitão Cristóvão de Mendonça, comendador de Arenilha e capitão, filho de Diogo de Mendonça, alcaide-mor de Mourão e um dos navegadores mais polémicos e controversos da história dos Descobrimentos Portugueses que aparece referido na documentação como fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, em 1514.