Raquel Ponte – Onde é citada a senhora Ministra do Ambiente
A imagem que acompanha esta reflexão, veio de um sonho que tive por estes dias, onde dei por mim a pensar na LUZ, talvez por se cumprir um ano sobre o apagão ibérico, talvez por ter lido recentemente um texto de um grande amigo e sábio da Natureza que discorria sobre energia, território e modelos de extração.
Talvez também por viver de perto, através do meu marido programador, uma outra forma de pensar sistemas: a das arquiteturas informáticas, onde a resiliência raramente nasce da concentração, mas da distribuição, da redundância e da capacidade de uma parte continuar a funcionar quando outra falha.
Foi a partir desse cruzamento – memória, território, energia e tecnologia – que esta reflexão começou.
Há um ano, a Península Ibérica experimentou uma suspensão brusca da normalidade. O apagão não interrompeu apenas o fornecimento de eletricidade. Interrompeu a ilusão diáfana de que os sistemas que sustentam a vida contemporânea são estáveis, neutros e inevitáveis.
Durante algumas horas, tornou-se visível aquilo que habitualmente permanece escondido: a nossa dependência de infraestruturas complexas, centralizadas e vulneráveis.
A questão energética não é, portanto, apenas uma questão técnica. É também uma questão política. Diz respeito à forma como organizamos o território, distribuímos poder, produzimos valor e definimos quem participa nas decisões fundamentais da vida coletiva.
A transição energética tem sido frequentemente apresentada como uma substituição de fontes: menos carvão, mais sol; menos petróleo, mais vento; menos emissões, mais renováveis. Mas esta leitura é insuficiente. Uma energia pode ser limpa do ponto de vista carbónico e permanecer injusta do ponto de vista social. Pode reduzir emissões e, simultaneamente, reproduzir dependências antigas.
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Se os territórios produzem energia, mas não controlam a sua distribuição, o seu preço ou os benefícios económicos que dela resultam, então a transição permanece incompleta. Troca-se a matéria-prima, mas conserva-se a arquitetura do poder.
É aqui que a descentralização se torna central!
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Na informática, programadores e arquitetos de sistemas sabem que, à medida que estruturas e infraestruturas ganham complexidade, a excessiva centralização tende a torná-las mais frágeis. Um único ponto de falha pode comprometer todo o sistema.
Por isso, os sistemas mais resilientes distribuem funções, replicam dados, criam redundâncias, repartem carga, isolam falhas e permitem que uma parte continue a funcionar mesmo quando outra colapsa. O mesmo princípio deveria orientar a energia.
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Uma rede elétrica excessivamente dependente de grandes centros de produção e longas cadeias de transporte é vulnerável. Pelo contrário, uma rede composta por múltiplos pontos de produção local, armazenamento distribuído, comunidades energéticas e micro-redes torna-se mais robusta.
Não porque elimina o risco, mas porque impede que uma falha se transforme automaticamente em colapso generalizado.
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Descentralizar não significa regressar ao passado nem rejeitar a escala nacional. Significa combinar escalas. Significa reconhecer que a rede pública é indispensável, mas que a autonomia local também o é. Significa passar de um modelo vertical – produzir longe, transportar, vender, consumir – para um modelo mais cooperativo, em que cidadãos, autarquias, escolas, empresas locais e instituições sociais possam também produzir, armazenar, partilhar e decidir.
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O apagão expôs a fragilidade da concentração. Mas mostrou igualmente outra coisa: quando a lógica automática da produtividade é suspensa, emergem formas de cooperação que a vida quotidiana tende a esmagar.
A solidariedade, a paciência e a atenção ao outro não são fantasias ingénuas. São capacidades sociais reais, embora frequentemente subordinadas à competição, à velocidade/voracidade da economia e à dependência.
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Por isso, pensar a energia é também pensar a democracia.
A pergunta decisiva não é apenas como produzir mais energia renovável. É saber quem a controla, quem beneficia, quem suporta os impactos, quem participa nas decisões e quem fica com o valor.
Há caminhos concretos já em curso, ainda insuficientes, mas politicamente relevantes.
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Em Portugal, o enquadramento legal já permite formas de autoconsumo coletivo e a criação de comunidades de energia renovável, abrindo a possibilidade de cidadãos e instituições locais participarem diretamente na produção e gestão da energia. Ainda assim, a distância entre a lei e a prática permanece significativa.
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Apesar disso, começam a surgir exemplos encorajadores. Em Vila Boa do Bispo, no Marco de Canaveses, foi criada uma comunidade de energia renovável, em parceria com a cooperativa Coopérnico, com investimento reduzido e impacto direto em equipamentos locais, permitindo poupanças concretas e retenção de valor no território.
Noutras regiões, multiplicam-se projetos de autoconsumo coletivo em escolas, edifícios públicos e pequenas empresas, ainda que muitas vezes limitados por barreiras administrativas, técnicas ou financeiras.
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Estes casos não representam ainda uma transformação estrutural. Mas demonstram que ela é possível.
Tal como nos sistemas informáticos mais robustos, a resiliência não nasce da concentração absoluta, mas da capacidade de distribuir, adaptar e continuar a funcionar perante a falha. O desafio energético contemporâneo não é apenas tecnológico, é organizacional e político.
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O apagão durou poucas horas mas deixou uma pergunta que permanece: Se já temos tecnologia para produzir energia de forma distribuída, se já conhecemos modelos mais resilientes, se já existem experiências concretas no terreno, então o que falta para mudar de escala?
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A luz do futuro não pode ser apenas a luz que acende casas.
Tem de ser também a luz que redistribui poder, reduz dependências e devolve às comunidades a capacidade de participar no desenho dos sistemas que sustentam a sua própria vida.
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Tenho a atual Ministra do Ambiente em muito boa consideração, talvez por isso espere dela mais do que uma resposta a jusante.
Querida Professora Graça, não basta ponderar processar Espanha pelo que aconteceu. Isso vem depois da falha.
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O verdadeiro desafio está a montante: ter coragem política para investir na descentralização energética e na resiliência territorial. Isso é que eu gostava de a ouvir dizer.
Aí, sim, VEREMOS!
Raquel Ponte / Opinião