A recente reunião entre a CCDR Algarve e os agentes do setor agrícola, nas instalações do Patacão, trouxe à agenda temas que ultrapassam a mera gestão administrativa.
Por trás da linguagem oficial sobre «reposição de potencial produtivo» e «reforço de apoios», escondem-se dilemas estruturais: a viabilidade económica da água tecnológica, a eficácia da retenção hídrica e a gestão de prioridades entre o turismo e a produção alimentar.
Solução ou fardo económico é o que se questiona sobre
a central de dessalinização de Albufeira, apresentada como a «jóia da coroa» da resiliência algarvia. No entanto, a análise de custo-benefício revela nuances importantes.
Com efeito, no fator custo, estima-se que a produção da água dessalinizada ronde os €0,80 a €1,10 por m3, sendo que. em comparação, os custos atuais de água superficial para regadio são significativamente inferiores.
Quanto à sustentabilidade energética, os processo de osmose inversa são um consumidor intensivo de energia e sem uma fonte renovável dedicada, o preço da água ficará refém das oscilações do mercado.
Com uma capacidade de 16 hm³, a central visa primariamente o consumo humano e turístico. Para a agricultura, esta água é, na prática, um «seguro de vida» de custo elevado, apenas comportável para culturas de altíssimo valor acrescentado.
O Papel dos Açudes
Enquanto se investem milhões em alta tecnologia, a engenharia civil tradicional de retenção parece ter passado para segundo plano.
Especialistas apontam que a construção de pequenos açudes e a limpeza de linhas de água permitiriam reter o escoamento episódico das chuvas intensas, cuja água atualmente se perde no oceano em poucas horas.
Sabe-se que a construção destas infraestruturas enfrenta uma malha apertada de licenciamentos ambientais. O paradoxo está na dificuldade em licenciar uma charca ou um açude de proximidade e contrasta com a celeridade dos grandes projetos estruturantes.
A recarga de aquíferos é tecnicamente a solução mais eficiente para o armazenamento de longo prazo, compensando as perdas por evaporação das barragens. as quais, no Algarve, podem atingir valores críticos, mas a gestão deste recurso sofre de uma pressão cruzada.
Agricultura vs. Turismo: Existe uma tensão latente entre a necessidade de água para a manutenção da produção agrícola e a manutenção dos padrões de consumo do turismo (piscinas e duches de praia).
Nas negociações sobre os rios internacionais, o argumento da «solidariedade ibérica» esbarra frequentemente na percepção de Madrid de que o Algarve utiliza recursos hídricos escassos para fins recreativos, o que dificulta a obtenção de caudais adicionais para a agricultura portuguesa.
A estratégia da CCDR em reforçar a proximidade com as Organizações de Produtores é um passo para organizar a procura, mas não resolve a escassez da oferta.
A decisão que se coloca ao Algarve não é apenas técnica, mas política, sobre se deve a região apostar tudo na água industrializada, ou existe espaço para recuperar a gestão hídrica de proximidade e impor limites ao consumo não produtivo.
