Um estudo da Universidade do Algarve quantifica pela primeira vez o impacto económico total do projeto de expansão da infraestrutura náutica de Vila Real de Santo António.
Os números revelam uma aposta estratégica no Mar como ativo diferenciador do território e as obras podem ter início no próximo mês de Setembro.
A ampliação será no sentido Sul e prolongará as amarrações do porto até sensivelmente a ligeira curva que a muralha apresenta, antes da figueira. Serão oito as novas amarrações.
A obra será feita em duas fases, sendo a segunda destinada ao tráfego marítimo-turístico do rio Guadiana e mar adjacente. As obras concluem no ano de 2031.
Castro Marim esteve presente
«Este grande rio que nos une, que suporta a nossa história territorial e que merece ser o nosso horizonte de partilha e desenvolvimento», disse Filomena Sintra, presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, agradecendo e felicitando a ASSOCIAÇÃO NAVAL DO GUADIANA pelo empreendedorismo e ousadia
Observou ainda que «os bons projetos, com sustentabilidade, e aceitação, serão aplaudidos e reconhecidos. Até lá, é como andar a navegar em mar bravo, ultrapassado o Cabo das Tormentas, venha a ampliação.»
A autarca identificou o empreendimento como «desafio para outros investimentos por esse rio adentro, com mais emprego, mais sustentabilidade da indústria naval, outro turismo, nova atractibilidade do território, mais investimento indireto, desenvolvimento para o Baixo Guadiana e da Euro Região»

- Por Guadiana Digital | Revista
Cheio há muito — com lista de espera de mais de 150 embarcações e procura de passantes que não encontram lugar —, o Porto de Recreio do Guadiana está prestes a dar um salto de escala.
O projeto de Ampliação e Requalificação da infraestrutura, promovido pela Associação Naval do Guadiana, avança em paralelo com um processo de Avaliação de Impacte Ambiental e com um estudo académico que pela primeira vez coloca números precisos na mesa: 27,9 milhões de euros de despesa total no concelho de Vila Real de Santo António e 101 postos de emprego, quando o projeto estiver plenamente operacional.
O estudo foi elaborado pelo Prof. Doutor Fernando Perna, investigador da Universidade do Algarve e do CiTUR — Centre for Tourism Research, Development and Innovation —, e foi apresentado à Associação Naval do Guadiana em maio deste ano.
O documento, classificado como confidencial mas apresentado publicamente pela entidade concessionária no âmbito do processo de AIA, traça dois cenários: a situação atual do porto e o cenário pós-ampliação.
O ponto de partida: 16,5 milhões e 71 empregos
O Porto de Recreio do Guadiana conta atualmente com 330 postos de amarração, distribuídos por quatro classes de comprimento: 150 lugares para embarcações entre 6 e 8 metros, 60 para embarcações de 8 a 10 metros, 80 para o segmento de 10 a 14 metros, e 40 para as maiores, entre 14 e 18/19 metros.
A taxa de ocupação média anual situava-se nos 72,6%, com picos na época alta que empurram o porto para os limites da sua capacidade instalada, num máximo projetado de 85%.
A infraestrutura emprega diretamente 14 trabalhadores permanentes — 9 arrais, 1 técnico de manutenção, 3 administrativos e 1 elemento de limpeza —, a que acrescem 3 colaboradores contratados em época alta.
Mas o impacto real vai muito além dos muros do porto. Medido pela ótica da despesa no concelho — ou seja, o dinheiro que os utilizadores do porto gastam em Vila Real de Santo António —, o estudo apura um impacto económico direto de 16.484.513 euros.
O segmento das embarcações de 10 a 14 metros é o mais representativo, gerando 5,9 milhões de euros (35,8% do total).
Os passantes — embarcações em trânsito que fazem escala no porto — respondem por 57,9% da despesa total, ou seja, 11,2 milhões de euros, superando largamente os clientes efetivos (36,1%).
Convertido em emprego, esse fluxo de despesa sustenta uma média anual de 70,8 postos de trabalho no concelho — entre restauração, alojamento, comércio, transportes e demais serviços da cadeia de valor náutica.
O projeto: mais 110 lugares e uma nova escala de embarcações
A ampliação prevê a construção de 110 novos postos de amarração, numa intervenção faseada (Fase 1A e Fase 1B) a executar entre 2026 e 2031, mediante prolongamento da estrutura portuária para jusante, em área sob jurisdição da DOCAPESCA.
A expansão aposta claramente em embarcações de maior porte: 45 dos novos lugares destinam-se ao segmento 12-15 metros (40,9%), 30 ao segmento 10-12 metros (27,3%) e os restantes a embarcações entre 15 e 23 metros.
A distribuição por tipo de cliente reserva 60 lugares para clientes efetivos, 40 para passantes e 10 para uso marítimo-turístico — uma aposta deliberada na diversificação da procura.
Em matéria de emprego direto, a ampliação cria 6 novos postos permanentes e 1 adicional em época alta.
O cenário final: quase 28 milhões e 101 postos de trabalho
Somando os efeitos da situação atual com os da ampliação, o estudo projeta um impacto acumulado de 27.925.256 euros de despesa total no concelho de Vila Real de Santo António — dos quais 16,5 milhões (59%) gerados pelo porto na sua configuração atual e 11,4 milhões (41%) resultantes do projeto de expansão.
Em termos de emprego, o total sobe para 101 postos de trabalho, 71 dos quais associados à infraestrutura já existente e 30 à ampliação.
Um dado estratégico que o estudo destaca: 49,7% da despesa total tem origem em clientes estrangeiros, constituindo exportações de serviços.
Espanha lidera entre os mercados externos (24,8% do total), seguida do Reino Unido (5,7%), França (4,9%), Países Baixos (3,6%) e Alemanha (2,2%). O estudo enquadra estes mercados nos mercados prioritários da Estratégia de Turismo 2027 do Turismo de Portugal, confirmando o alinhamento do projeto com a política turística nacional.
O Mar como ativo estratégico
O professor Fernando Perna utiliza o conceito de Prospect Theory para ilustrar a assimetria do projeto: a perda potencial de 11,4 milhões de euros — caso o projeto não avance — pesa psicologicamente mais do que o ganho equivalente, o que reforça a racionalidade económica da decisão de investir.
O estudo insere igualmente o projeto no quadro da Estratégia de Turismo 2027, que classifica o Mar como Ativo Estratégico Diferenciador da oferta turística nacional — endógeno, não transacionável e gerador de fluxos.
Para uma cidade como Vila Real de Santo António, com índice de envelhecimento de 206,5 (acima da média algarvia de 178,1), ganho médio mensal de 1.258 euros e um trabalhador médio a precisar de 23,4 anos de rendimento líquido para comprar uma casa de 90 metros quadrados, o investimento na náutica de recreio representa muito mais do que turismo: representa a aposta numa economia que gera riqueza local com matéria-prima que nenhum outro território pode replicar — o estuário do Guadiana.
A Associação Naval do Guadiana
Fundada em 1983 e detentora do estatuto de Utilidade Pública, a Associação Naval do Guadiana gere o Porto de Recreio desde a sua construção e é a entidade coordenadora da Estação Náutica do Baixo Guadiana.
Com cerca de 800 associados, desenvolve atividade nas modalidades de vela, canoagem, pesca desportiva, motonáutica, jet ski e formação náutica, e opera restauração e serviços de apoio ao porto.

Com Arenilha TV e Claude


